segunda-feira, 26 de outubro de 2026

VIDA - UMA QUESTÃO DE PERSPECTIVA

“Há grandes chances de o seu ponto de vista não ser o único possível!” - Carl Sagan

        A frase do renomado astrônomo científico Carl Sagan nos convida a uma reflexão profunda sobre a humildade intelectual e a abertura para perspectivas diversas. Em um mundo cada vez mais polarizado, onde opiniões se cristalizam e o diálogo muitas vezes dá lugar à intolerância, a mensagem de Sagan ressoa como um lembrete essencial: nossa visão de mundo, por mais fundamentada que pareça, é apenas uma entre muitas.

 

METONÍMIA e ROTULAGEM: ANTES DO RÓTULO, HAVIA ALGUÉM

ANTES DO RÓTULO, HAVIA ALGUÉM

Sobre a pessoa, a profissão e o posicionamento político

por Heitor Jorge Lau

            Há uma cena banal que se repete todos os dias, em conversas de bar, reuniões de trabalho e, sobretudo, nas redes sociais. Alguém menciona um nome e, antes que a frase termine, o interlocutor já decidiu quem é aquela pessoa: “ah, é professor”, “ah, é de direita”, “ah, é daquele partido”. Em poucos segundos, um ser humano inteiro foi arquivado numa gaveta com etiqueta. A pergunta que merece ser feita é simples e, justamente por isso, desconfortável: quando falamos de alguém, de quem estamos realmente falando? Sobre a pessoa, sobre a sua profissão ou do seu posicionamento político?

            A resposta mais honesta - do ponto de vista filosófico e linguístico - é que um nome próprio aponta para um indivíduo inteiro, com biografia, afetos, medos, contradições e uma história que ultrapassa qualquer papel que ele desempenhe. Quando dizemos “João”, não estamos dizendo “o contador” nem “o eleitor de tal candidato”. Profissão e convicção política são atributos de alguém, não o alguém em si. Um médico é uma pessoa que exerce a medicina; um militante é uma pessoa que abraçou certas ideias. O atributo descreve, mas não esgota. Essa distinção parece óbvia quando enunciada com calma, e, no entanto, é violada com uma naturalidade assustadora no dia a dia.

            O mecanismo dessa violação é conhecido. Trata-se da METONÍMIA e da ROTULAGEM: tomamos a parte pelo todo e deixamos que a categoria fale no lugar do indivíduo. Expressamos “os médicos pensam assim”, “os professores são todos iguais”, “os eleitores daquele lado fazem aquilo”, e a pessoa concreta desaparece atrás do grupo abstrato. Há, é verdade, uma economia cognitiva nisso, porque o mundo é complexo e o rótulo simplifica. Mas o preço da simplificação é alto. O rótulo apaga a singularidade, atribui a cada um tudo o que se associa ao coletivo e transforma o debate de ideias em um confronto de identidades. Quem é reduzido ao rótulo deixa de ser ouvido pelo que diz e passa a ser lido pelo que supostamente representa.

            Convém, contudo, separar dois planos. No plano descritivo, mencionar a profissão ou a posição política de alguém é perfeitamente legítimo quando isso é relevante ao assunto em questão. Se discutimos uma sentença, é pertinente falar da juíza; se analisamos um voto no parlamento, é pertinente falar do partido do parlamentar. O problema nasce no plano valorativo, quando o atributo deixa de ser informação e vira argumento. “Isso é coisa de empresário”, “só poderia vir de um professor universitário”: nessas frases, ninguém examina o que foi dito, apenas desqualifica-se quem disse. É a velha falácia ad hominem, que avalia o falante em vez da fala. E o caminho inverso é igualmente enganoso, o argumento de autoridade, em que o atributo serve de escudo: “ele é doutor, logo está certo”. Nos dois casos, o rótulo ocupa o lugar que deveria pertencer à razão.

            Seria um erro, porém, concluir que profissão e política são camadas superficiais, que a pessoa veste e despe como um casaco. Para muita gente, ser professor, militar, enfermeiro ou militante não é apenas o que faz... é quem é. São escolhas que moldam rotinas, vínculos, vocabulário e até a forma de enxergar o mundo. Tratar esses elementos como descartáveis também seria uma injustiça, porque negaria algo que a própria pessoa considera essencial em sua trajetória. A questão, portanto, não é negar que tais atributos compõem alguém, e sim reconhecer que compõem sem esgotar. Uma pessoa pode ser coerente em suas convicções e, ainda assim, surpreender, mudar de ideia, discordar do próprio grupo e agir de modo que nenhum rótulo previa. A coerência de um indivíduo é maior e mais interessante do que a coerência de qualquer categoria.

            Há aqui, ainda, uma dimensão que toca diretamente o problema da interpretação. Quando lemos ou ouvimos alguém já munidos de um rótulo, aplicamos uma intenção presumida ao discurso antes mesmo de compreendê-lo. Em vez de interpretar o que foi dito, projetamos o que esperávamos ouvir. Umberto Eco, ao refletir sobre os limites da interpretação, lembrava que um texto não pode ser transformado em qualquer coisa que o leitor deseje, que há um ponto em que a leitura precisa ser contida por aquilo que o texto efetivamente diz. Com as pessoas ocorre algo semelhante. O rótulo funciona como uma chave de leitura imposta de fora, uma “sobreinterpretação” que faz a fala do outro caber, à força, na caixa que já tínhamos preparado. Ouvimos o que o rótulo prometia, não o que a pessoa disse.

            O ambiente digital agrava esse quadro. As redes sociais premiam a identificação rápida de lados, recompensam a frase de efeito e punem a nuance. Cada perfil é lido em segundos, classificado em segundos e, em segundos, aceito ou condenado. Nessa lógica, quem se apresenta como “fulano, professor, de direita” ou “beltrana, advogada, de esquerda” oferece, voluntariamente, o crachá com o qual será lido. Seria isso uma autorização para que o reduzam ao crachá? Penso que não. Quem se apresenta por um rótulo está dizendo de onde fala, não renunciando ao direito de ser compreendido além dele. Apresentar-se não é render-se à classificação alheia.

            Existe, por fim, uma maneira honesta de criticar ideias, instituições e grupos sem atingir injustamente os indivíduos que os compõem. Ela exige um esforço que o rótulo dispensa: o de ouvir antes de classificar, perguntar antes de presumir, e de refutar o argumento e não o argumentador. É mais trabalhoso, sem dúvida, porque obriga a reconhecer que o outro é complexo tanto quanto nós mesmos. Mas é também o único caminho para um debate que produza compreensão, e não apenas ruído.

            Enfim, quando nos referimos a uma pessoa, referimo-nos a ela, inteira, com tudo o que a torna única, inclusive a profissão que exerce e as ideias que defende, mas sem nunca nos limitarmos a essas marcas. Tratar alguém como pessoa antes de tratá-lo como representante de uma categoria é um ato de justiça e de generosidade intelectual. Antes do rótulo, havia alguém. E o maior desafio é lembrar disso, justamente quando o rótulo é mais conveniente do que a conversa.

 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

DOENÇA DE CREUTZFELDT-JAKOB - DCJ

DOENÇA DE CREUTZFELDT-JAKOB

ENTENDENDO UMA ENFERMIDADE RARA E SILENCIOSA

por Heitor Jorge Lau

PSICANALISTA

            Lito Sousa, influenciador e especialista em aviação, criador do canal “Aviões e Músicas”. Falecido aos 59 anos, em 1º de outubro de 2026, por complicações da doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma condição neurológica rara que compromete o funcionamento do cérebro. Foram menos de dois meses entre o diagnóstico e a morte.

            A doença de Creutzfeldt-Jakob, muitas vezes chamada apenas de DCJ, é uma enfermidade que ataca o cérebro e provoca uma perda muito rápida das capacidades de pensar, lembrar das coisas e de controlar o próprio corpo. O nome vem dos dois médicos alemães que a descreveram no início do século passado. Ela é considerada rara porque aparece em cerca de uma a duas pessoas por milhão a cada ano. Apesar de pouco frequente, desperta atenção por ser grave e por ter uma origem diferente de quase todas as outras doenças que conhecemos.

            Para entendê-la, é preciso primeiro saber o que é uma proteína. Proteínas são pequenas estruturas, invisíveis a olho nu, que o corpo fabrica o tempo todo e que funcionam como minúsculas peças de trabalho. Algumas ajudam a digerir os alimentos, outras formam os músculos, outras transportam substâncias pelo sangue. Cada proteína só funciona direito porque tem um formato específico, como uma chave que só abre determinada fechadura. Quando o formato muda, a peça deixa de cumprir seu papel e pode até atrapalhar o trabalho das vizinhas.

            No centro da doença está um tipo especial de proteína, chamada Príon. O mais curioso é que ela existe normalmente no cérebro de todas as pessoas saudáveis, e os cientistas ainda discutem qual é exatamente a sua função. O problema começa quando uma dessas proteínas se “dobra” do jeito errado, adquirindo um formato anormal. Essa versão defeituosa tem uma característica perigosa: ela força as proteínas normais ao seu redor a adotarem também o formato errado. É como uma fila de dominós em que a queda de um derruba o seguinte, e assim a alteração se espalha aos poucos.

            À medida que as proteínas defeituosas se multiplicam, elas se acumulam dentro do cérebro e passam a prejudicar os neurônios, que são as células responsáveis por receber, processar e enviar as mensagens que nos permitem pensar, sentir, falar e nos movimentar. Os neurônios danificados vão morrendo, e no lugar deles surgem pequenos buracos. Quando os médicos examinam o tecido cerebral ao microscópio, ele lembra uma esponja cheia de furos. Por isso a DCJ pertence a um grupo chamado de Encefalopatias Espongiformes, expressão que significa, simplesmente, doenças do cérebro com aspecto de esponja.

            A doença pode surgir por três caminhos diferentes. O mais comum, responsável pela grande maioria dos casos, é o chamado esporádico, em que ela aparece sem motivo conhecido, como se uma proteína se dobrasse errado por acaso. O segundo caminho é o hereditário, em que a pessoa nasce com uma alteração em um gene, que é o trecho do material genético que guarda as instruções para fabricar cada proteína. Esse defeito passa de pais para filhos e faz o corpo produzir a proteína já propensa ao erro. O terceiro caminho, bem mais raro, é o adquirido, quando o contato com tecido cerebral contaminado transmite o problema, como ocorreu no passado em certos tratamentos médicos antigos e em casos ligados ao consumo de carne de gado doente, a famosa Doença da Vaca Louca.

            Os primeiros sinais costumam ser confundidos com problemas comuns: esquecimentos, dificuldade de concentração, mudanças de humor, ansiedade, tristeza profunda ou alterações de comportamento. Logo depois surgem sintomas mais evidentes, como falta de coordenação ao andar, problemas de visão, dificuldade para falar e movimentos bruscos e involuntários, que são pequenos sacolejos nos músculos que a pessoa não consegue controlar. O quadro avança até a demência, que é a perda grave da capacidade de raciocinar, de lembrar e de cuidar de si mesmo. Nas fases finais, a pessoa pode ficar incapaz de se mexer e de se comunicar, embora em muitos casos a consciência permaneça por bastante tempo.

            O que torna a DCJ especialmente dura é a velocidade. Enquanto outras doenças que afetam a memória levam muitos anos para progredir, aqui a DCJ costuma se dar em semanas ou meses, e a maioria dos pacientes falece em cerca de um ano após os primeiros sintomas, muitas vezes em bem menos tempo. O diagnóstico não é simples, porque os sintomas lembram os de outras condições. Os médicos combinam a avaliação clínica com exames de imagem do cérebro, o registro da atividade elétrica cerebral e a análise do líquido que envolve a medula, em busca de sinais da proteína alterada. A confirmação absoluta só vem com o exame do tecido do cérebro.

            Até hoje não existe cura nem tratamento capaz de interromper ou reverter a doença. O cuidado se concentra nos chamados cuidados paliativos, que são aqueles voltados a aliviar o sofrimento, controlar os sintomas e dar conforto ao paciente e à família, sem a pretensão de curar. Pesquisadores em vários países testam substâncias experimentais, que são medicamentos ainda em fase de estudo e sem eficácia comprovada, na esperança de frear o avanço da doença. Os resultados ainda são incertos, mas cada estudo ajuda a compreender melhor esse mecanismo tão incomum de adoecimento.

            Uma dúvida frequente é se a doença é contagiosa, e a resposta tranquilizadora é que ela não se transmite pelo convívio do dia a dia. Abraçar, conversar, dividir a mesa ou cuidar de um paciente em casa não oferece risco. A transmissão exige contato direto com tecidos contaminados, o que só ocorre em situações muito específicas, como certos procedimentos médicos com instrumentos mal esterilizados, algo que hoje é rigorosamente controlado. Compreender a DCJ ajuda a diminuir o medo e o preconceito e lembra o quanto ainda há a descobrir sobre o funcionamento do cérebro humano e sobre os limites da medicina.

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

HEREDITARIEDADE - ATÉ ONDE SOMOS O QUE ESTÁ ESCRITO EM NÓS?

O GENE E A PERGUNTA QUE ELE NOS FAZ:

ATÉ ONDE SOMOS O QUE ESTÁ ESCRITO EM NÓS?

por Heitor Jorge Lau

            Quase todo mundo já ouviu alguém dizer "puxou ao pai" ou "tem o gênio da avó". Frases assim mostram que, desde sempre, as pessoas perceberam que algo passa de uma geração para a outra, mas ninguém sabia o quê, nem como. É essa curiosidade antiga que o médico e pesquisador Siddhartha Mukherjee transforma em história no livro "O Gene: uma história íntima". Ele conta como a humanidade passou de simples palpites sobre a hereditariedade a ler, e hoje até a reescrever, o código que está dentro de cada uma de nossas células. Mas o livro não é apenas ciência. Mukherjee mistura essa trajetória com a da própria família, em que vários parentes sofreram de doenças mentais graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar. Essa sombra o acompanha e o leva a uma dúvida que também pode ser nossa: quanto do nosso destino já vem pronto de “fábrica”?

            A história começa no século XIX, com um monge chamado Gregor Mendel, que passou anos cultivando ervilhas no jardim de um mosteiro. Cruzando plantas de sementes lisas e rugosas, de flores brancas e roxas, ele percebeu que as características não se misturavam como tinta. Elas passavam de pai para filho em pequenas unidades separadas, que depois ganhariam o nome de genes. O mais curioso é que ninguém deu importância ao trabalho dele. Mendel morreu sem reconhecimento, e suas ideias ficaram esquecidas por décadas. Enquanto isso, Charles Darwin propunha a evolução das espécies sem conseguir explicar como as características eram transmitidas de uma geração para a outra. A resposta já existia, mas estava guardada numa publicação que quase ninguém leu. Só no início do século XX o mundo redescobriu Mendel e percebeu que ele tinha entregado a peça que faltava no quebra-cabeça da vida.

            Quando a genética ganhou força, veio também um dos capítulos mais tristes da história. Se era possível entender a hereditariedade, algumas pessoas pensaram que seria possível "melhorar" a humanidade, escolhendo quem deveria ter filhos e quem não deveria. Essa ideia se chamou eugenia e foi defendida em vários países, inclusive por pessoas respeitadas na época. Nos Estados Unidos, milhares de pessoas foram esterilizadas à força, só por serem pobres, terem alguma deficiência ou serem consideradas "inadequadas". Um dos casos mais conhecidos é o da jovem Carrie Buck, que teve a esterilização aprovada pela Justiça. Na Alemanha nazista, essa lógica foi levada ao extremo e terminou no extermínio de milhões de pessoas. Mukherjee faz questão de lembrar esse episódio porque ele mostra o perigo de usar a ciência da herança para decidir quem merece existir e quem não merece.

            Passado esse período sombrio, os cientistas começaram a perguntar do que, afinal, os genes são feitos. Durante um tempo, muita gente achava que a herança estava guardada nas proteínas. Depois, experimentos cuidadosos mostraram que o verdadeiro material hereditário era o DNA. Em 1953, James Watson e Francis Crick apresentaram ao mundo a famosa forma de dupla hélice, uma espécie de escada em espiral. Eles contaram com dados importantes obtidos pela cientista Rosalind Franklin, cujo papel só foi reconhecido de forma mais justa com o passar do tempo. A partir dali tudo mudou de velocidade. Os pesquisadores decifraram como o DNA funciona como uma receita, escrita com apenas quatro letras, que ensina a célula a fabricar proteínas. Descobriram também que os genes são ligados e desligados conforme a necessidade, o que explica por que uma célula do coração é diferente de uma célula do cérebro, mesmo tendo o mesmo DNA.

            Com o avanço das técnicas, os cientistas aprenderam não só a ler o DNA, mas a cortá-lo, emendá-lo e passá-lo de um organismo para outro. Era uma ferramenta poderosa, capaz de produzir remédios, como a insulina feita por bactérias, mas também capaz de assustar. Em 1975, pesquisadores do mundo inteiro se reuniram numa cidade da Califórnia, chamada Asilomar, para discutir os riscos do que estavam criando. Foi um momento raro na história, em que cientistas propuseram limites para o próprio trabalho antes que algo desse errado. Pouco depois veio o grande projeto de ler o genoma humano inteiro, o conjunto completo das nossas instruções genéticas. Foi uma corrida entre um grupo de instituições públicas e uma empresa privada, e ela terminou, no início dos anos 2000, com o primeiro mapa da nossa espécie. A comemoração foi enorme, e a expectativa, ainda maior.

            Mas o mapa trouxe uma surpresa. Muita gente imaginava que, com o genoma na mão, saberíamos explicar tudo sobre as doenças e sobre as pessoas. Não foi isso que aconteceu. Algumas doenças, como a de Huntington (doença hereditária e degenerativa do cérebro), dependem de um único gene defeituoso, e nesses casos a ligação é direta. Mas a grande maioria das características humanas, da altura à propensão para certas doenças, depende de muitos genes trabalhando juntos, além do ambiente em que a pessoa vive, das experiências que tem e até do puro acaso. Mukherjee mostra que os genes não funcionam como uma sentença definitiva, e sim como um conjunto de probabilidades. Ter uma predisposição não significa que a doença virá, assim como não ter não significa que ela nunca virá. Entender isso é importante para não cairmos na ideia simplista de que somos apenas o que o nosso DNA diz.

            O livro também trata de temas delicados, como inteligência, identidade, sexualidade e raça. Nessas áreas, é comum que a ciência seja mal interpretada ou usada para reforçar preconceitos que já existiam. O autor lembra que as diferenças entre grupos humanos são muito menores do que as diferenças que existem entre indivíduos dentro de um mesmo grupo, e que a ideia de "raças" biológicas bem definidas não se sustenta nos dados. Ele mostra, ainda, o lado difícil da tentativa de corrigir genes defeituosos em pessoas doentes, a chamada terapia gênica. Houve avanços importantes, mas também fracassos dolorosos, como a morte de um jovem chamado Jesse Gelsinger, durante um teste, em 1999. Esse caso serviu de alerta de que a medicina, por mais bem-intencionada que seja, precisa avançar com cuidado, transparência e respeito pelas pessoas que se voluntariam para a pesquisa.

         Nos capítulos finais, o autor chega ao presente e ao futuro. Hoje já é possível investigar o DNA de um bebê antes mesmo do nascimento e identificar certas doenças. Também já existem ferramentas, como a famosa CRISPR, que funcionam como uma tesoura molecular capaz de editar o código da vida com enorme precisão. Isso abre a porta para curar doenças graves, mas abre também uma pergunta desconfortável: quem vai decidir o que é doença, o que é normal e o que é apenas um "aprimoramento"? Será que um dia pais poderão escolher a altura, a cor dos olhos ou a inteligência dos filhos? Mukherjee não entrega uma resposta pronta. Ele defende que os genes moldam o que somos, mas não decidem tudo, e que a liberdade de mexer na hereditariedade exige humildade, regras claras e boa memória do que a eugenia já provocou.

            Portanto, a grande lição do livro é que conhecer o gene não significa dominar a vida. Quanto mais aprendemos sobre a nossa herança biológica, mais percebemos que somos resultado de uma combinação complexa entre genes, ambiente, história e acaso. Ao mesmo tempo, o poder de ler e alterar o código humano cresce a cada ano, e com ele cresce também a nossa responsabilidade. Não se trata apenas de uma discussão para cientistas em laboratórios, mas de um debate que envolve todos nós, porque diz respeito ao futuro da nossa espécie. Mukherjee nos convida a olhar para essa história com curiosidade, mas também com cuidado, lembrando que a pergunta mais importante não é o que a ciência consegue fazer com os genes, e sim o que nós, como sociedade, decidimos que vale a pena fazer.

 

 

CANNABIS - A ERVA QUE NUNCA PEDIU PARA SER VILÃ

A ERVA QUE NUNCA PEDIU PARA SER VILÃ

O que a história da Cannabis revela sobre nós

por Heitor Jorge Lau

 

            Antes de começar: um convite à curiosidade.

            Este texto é uma reflexão de divulgação sobre a Cannabis, planta que acompanha diferentes sociedades há milênios e continua provocando debates intensos. A proposta não é defender o consumo nem o condenar de antemão, mas examinar como história, ciência, política e preconceitos se misturaram na maneira como a sociedade passou a enxergar essa planta. O tema costuma ser tratado por meio de certezas opostas: de um lado, a condenação absoluta; de outro, a apresentação da Cannabis como solução para inúmeros problemas. A realidade é mais complexa e exige disposição para distinguir fatos, hipóteses e opiniões.

            Este material não oferece orientação médica, não recomenda tratamentos e não substitui a avaliação de profissionais habilitados. As evidências científicas e as normas sanitárias mudam, e informações gerais não permitem decidir o que é adequado para uma pessoa específica. O objetivo é informar, levantar perguntas e estimular a consulta a fontes confiáveis, sem transformar a curiosidade em incentivo ao uso de substâncias.

            Boa leitura!

 

            Uma planta, muitos usos e uma história controversa

            Muito antes de se tornar assunto de delegacia, legislação e disputa política, a Cannabis já era cultivada em diferentes regiões da Ásia. Suas fibras, conhecidas como cânhamo, foram utilizadas na fabricação de cordas, tecidos e outros materiais; em diferentes culturas, a planta também apareceu em práticas medicinais e rituais. O cânhamo teve importância em atividades marítimas, entre elas a produção de cordames e velas. A história da planta, portanto, é muito mais antiga e diversificada do que sua associação contemporânea com a droga recreativa.

         No Brasil, a história da Cannabis também se relaciona com a colonização, a circulação de mercadorias e a presença de populações africanas escravizadas e de seus descendentes. A repressão ao seu consumo não pode ser compreendida apenas como uma resposta neutra a propriedades farmacológicas. Estudos históricos apontam a influência do racismo, da desigualdade social e de representações que associavam determinados hábitos às classes consideradas perigosas ou inferiores. Nos Estados Unidos, campanhas do século XX também exploraram associações entre a maconha, imigrantes mexicanos e a população negra.

        É importante, contudo, evitar uma explicação simplista. A história da proibição envolveu preconceitos e disputas políticas, mas também se desenvolveu em contextos internacionais de controle de substâncias e de preocupações sanitárias. Reconhecer a dimensão discriminatória dessa trajetória não exige afirmar que todo receio era inventado ou que qualquer forma de consumo é segura. O ponto é outro: leis e julgamentos sociais não são, por si sós, provas científicas, assim como a existência de preconceito não elimina os riscos reais de uma substância.

 

            O que a ciência descobriu — e o que isso não significa

          Em 1964, o pesquisador Raphael Mechoulam e seus colaboradores identificaram e caracterizaram o THC, principal composto responsável pelos efeitos psicoativos mais conhecidos da Cannabis. Pesquisas posteriores ajudaram a revelar o sistema endocanabinoide: uma rede de receptores e moléculas produzidas pelo próprio organismo que participa de processos como a regulação da dor, do apetite, da memória e de outras funções. Essa descoberta ampliou a compreensão científica sobre a ação dos canabinoides e abriu novas linhas de investigação.

         A existência desse sistema no corpo humano, porém, não significa que a planta seja naturalmente inofensiva ou que seus compostos sejam adequados para qualquer finalidade. Substâncias que atuam em processos fisiológicos podem produzir benefícios em determinadas condições e efeitos indesejados em outras. Os resultados dependem do composto utilizado, da dose, forma de administração, frequência de uso, idade e das condições de saúde da pessoa. A linguagem da ciência exige essas distinções. Slogans, sejam favoráveis ou contrários, costumam apagá-las.

 

            Quando a cannabis pode ser medicamento

         A pesquisa médica sobre canabinoides produziu resultados relevantes em algumas situações clínicas. Entre as evidências mais consistentes estão as obtidas com medicamentos à base de canabidiol purificado como tratamento complementar para determinadas síndromes epilépticas graves, incluindo as síndromes de Dravet e de Lennox-Gastaut e o complexo de esclerose tuberosa. Nesses casos, ensaios clínicos controlados demonstraram redução de crises em parte dos pacientes. Isso não significa cura, nem dispensa o acompanhamento especializado, mas representa uma possibilidade terapêutica importante para pessoas que enfrentam doenças difíceis de tratar.

        Em outras condições, os resultados são mais limitados. Alguns medicamentos que contêm canabinoides podem ajudar a aliviar determinados sintomas, como náuseas e vômitos associados à quimioterapia em situações específicas, espasticidade relacionada à esclerose múltipla e certos tipos de dor crônica. Na dor neuropática, por exemplo, algumas pesquisas encontram benefícios pequenos para parte dos pacientes, acompanhados de maior ocorrência de efeitos adversos. A magnitude do benefício e a qualidade das evidências variam conforme o produto e a condição estudada.

            Em áreas como ansiedade, insônia, doença de Parkinson, transtorno do espectro autista e outras condições, a investigação continua, mas as evidências ainda não sustentam promessas generalizadas de eficácia. Resultados preliminares, relatos individuais e estudos pequenos podem ajudar a formular hipóteses, mas não equivalem a comprovação clínica robusta. Desconfie de produtos anunciados como cura universal ou apresentados como substitutos garantidos de tratamentos estabelecidos. Na medicina, a pergunta decisiva não é se uma substância parece promissora, mas para quem funciona, em qual situação, em que dose e com quais riscos.

            Remédio é uma coisa. Fumar é outra.

         Uma distinção essencial costuma desaparecer no debate público: medicamento à base de Cannabis não é a mesma coisa que fumar a planta. Um produto medicinal regularizado tem composição e concentração definidas, orientações de uso e controles de qualidade, embora isso não elimine todos os riscos. Já a fumaça resulta da combustão de material vegetal e contém partículas e substâncias irritantes. Os estudos que demonstram benefício de um medicamento específico não podem ser usados automaticamente como prova de que fumar maconha trate uma doença.

          O uso fumado está associado a sintomas respiratórios, como tosse persistente, produção de catarro e chiado, especialmente quando é frequente. A fumaça da Cannabis contém diversos compostos tóxicos também encontrados na fumaça do tabaco. A relação entre fumar Cannabis e câncer de pulmão, por sua vez, é menos conclusiva do que a relação estabelecida para o tabaco. Os estudos enfrentam limitações, inclusive a dificuldade de separar os efeitos de diferentes hábitos de consumo. Essa incerteza não demonstra segurança: significa apenas que a dimensão exata do risco ainda não está suficientemente definida.

        A vaporização pode reduzir a exposição a alguns produtos da combustão, mas não torna o consumo isento de risco, e os dispositivos e produtos utilizados variam. Além disso, os efeitos do THC não se limitam aos pulmões. A substância pode prejudicar a atenção, a memória e a coordenação, aumentar o risco de acidentes ao dirigir e provocar ansiedade intensa em algumas pessoas. Em indivíduos vulneráveis, o consumo — sobretudo frequente ou iniciado precocemente — está associado a maior preocupação com dependência e problemas de saúde mental.

 

            Os riscos não desaparecem porque existem usos medicinais

            O consumo de Cannabis não produz os mesmos efeitos em todas as pessoas, mas tampouco é inofensivo. O risco de desenvolver dependência aumenta com o uso frequente. Adolescentes e adultos jovens merecem atenção especial porque o cérebro ainda está em desenvolvimento. O THC pode alterar memória, atenção, coordenação e percepção do tempo, além de provocar taquicardia, tontura, ansiedade ou, em pessoas predispostas, episódios psicóticos. A potência dos produtos e a frequência de consumo também influenciam os riscos.

            O canabidiol costuma produzir menos efeitos intoxicantes do que o THC, mas não é desprovido de efeitos adversos nem de interações com outros medicamentos. Pode causar sonolência, diarreia e alterações em exames laboratoriais, além de interferir no metabolismo de determinados fármacos. Produtos sem controle de qualidade podem apresentar concentrações diferentes das informadas ou conter contaminantes. Por isso, o uso medicinal deve ser discutido com profissional habilitado, considerando o diagnóstico, os medicamentos já utilizados e a qualidade do produto.

 

                  Políticas públicas: avaliar resultados, não slogans

            A chamada guerra às drogas mobilizou recursos policiais e judiciais por décadas, mas não eliminou o consumo nem o mercado ilegal. Em diferentes países, governos passaram a experimentar modelos distintos, da descriminalização do porte para uso pessoal à regulação de mercados de Cannabis. Portugal adotou em 2001 a descriminalização do porte para consumo pessoal de drogas, mantendo a proibição do tráfico; o Uruguai aprovou em 2013 um modelo de regulação legal da Cannabis. Essas experiências não são idênticas e não devem ser tratadas como soluções automáticas para outros países.

            Avaliar uma política exige examinar seus efeitos sobre a saúde pública, o acesso a tratamento, o consumo entre jovens, a segurança, o encarceramento, o mercado ilegal e as desigualdades sociais. Uma mudança na lei não elimina todos os problemas, assim como a proibição não garante que eles sejam resolvidos. O debate público ganha qualidade quando abandona promessas absolutas e considera dados, limites e consequências reais.

 

            O cenário brasileiro e a necessidade de informação atualizada

            No Brasil, existem regras específicas para produtos derivados de Cannabis destinados ao uso medicinal, incluindo exigências sanitárias e condições de prescrição e acesso. A Anvisa atualizou esse marco regulatório em 2026, por meio da RDC nº 1.015/2026, e publicou orientações complementares sobre sua aplicação. As normas podem distinguir categorias de produtos, vias de administração e requisitos de controle E, por isso, não é prudente resumir o regime jurídico em uma frase genérica nem reproduzir regras de receituário sem conferência direta do texto vigente.

            A autorização sanitária de determinados produtos para uso medicinal não equivale a uma aprovação geral da planta fumada, nem significa que todo produto disponível no mercado tenha eficácia comprovada para qualquer doença. Da mesma forma, a existência de pesquisas ou de acesso medicinal regulamentado não resolve, por si só, o debate sobre o uso recreativo. Para informações práticas, é necessário consultar a Anvisa e os profissionais responsáveis, pois regras e orientações podem ser atualizadas.

 

            Entre a demonização e a idealização

           A história da Cannabis revela algo que ultrapassa a própria planta: sociedades podem transformar um objeto em símbolo de ameaça ou de esperança, e os dois movimentos podem dificultar uma avaliação serena. O preconceito histórico merece ser reconhecido, assim como os benefícios terapêuticos demonstrados em situações específicas. Mas reconhecer um passado de discriminação não obriga ninguém a minimizar os riscos do consumo, e do mesmo modo, reconhecer riscos não justifica ignorar pesquisas promissoras ou negar tratamento a quem pode se beneficiar dele.

            A posição mais responsável não é escolher um lado antes de examinar as evidências. É perguntar qual produto está sendo discutido, para qual finalidade, com que grau de comprovação, quais riscos são conhecidos e quais questões permanecem em aberto. A Cannabis não precisa ser tratada como vilã absoluta nem como solução milagrosa. Precisa ser compreendida com rigor, contexto e senso crítico. Quando o debate deixa de ser uma disputa de identidades e passa a ser uma investigação honesta, a sociedade fica em melhores condições de proteger a saúde, enfrentar injustiças e formular políticas públicas mais eficazes.

 

            Fontes para consulta

            Anvisa — Perguntas e respostas sobre a autorização sanitária de produtos de Cannabis. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-publica-perguntas-e-respostas-sobre-a-autorizacao-sanitaria-de-produtos-de-cannabis

            Anvisa — RDC nº 1.015, de 2 de fevereiro de 2026 (texto normativo e histórico de alterações). https://anvisalegis.datalegis.net/action/ActionDatalegis.php?acao=abrirTextoAto&cod_menu=9451&cod_modulo=134&link=S&numeroAto=00001015&orgao=ANVISA%2FMS&seqAto=222&tipo=RDC&valorAno=2026

            National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine — The Health Effects of Cannabis and Cannabinoids (2017). https://nap.nationalacademies.org/catalog/24625/the-health-effects-of-cannabis-and-cannabinoids-the-current-state

            Centers for Disease Control and Prevention — Cannabis and Lung Health. https://www.cdc.gov/cannabis/health-effects/lung-health.html

            U.S. Food and Drug Administration — FDA and Cannabis: Research and Drug Approval Process. https://www.fda.gov/news-events/public-health-focus/fda-and-cannabis-research-and-drug-approval-process

            AHRQ — Living Systematic Review on Cannabis and Other Plant-Based Treatments for Chronic Pain. https://effectivehealthcare.ahrq.gov/products/plant-based-chronic-pain-treatment/living-review

 

Texto revisado para fins de divulgação e reflexão.

Não constitui orientação médica ou jurídica.

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O DESTINO DA HUMANIDADE DIANTE DA IMENSIDÃO DO UNIVERSO

O DESTINO DA HUMANIDADE DIANTE DA IMENSIDÃO DO UNIVERSO

por Heitor Jorge Lau

            É possível que, em um futuro distante, nossos descendentes observem a Terra a partir de outros mundos, reconstruam os acontecimentos que marcaram nossa época e se perguntem por que uma espécie que compreendia os riscos de suas próprias ações demorou tanto para enfrentá-los. A questão fundamental, portanto, talvez não seja se a humanidade conseguirá conquistar outros planetas, prolongar indefinidamente sua existência ou descobrir todos os segredos da natureza, mas se conseguirá desenvolver sabedoria suficiente para reconhecer o valor daquilo que já possui.

            Boa leitura!

 

            A história do universo é uma história de transformações que se estende por bilhões de anos, desde os primeiros instantes de sua existência até a formação das galáxias, o nascimento e a morte das estrelas e a constituição dos elementos químicos que hoje encontramos nos organismos vivos e em tudo aquilo que compõe o mundo ao nosso redor. Durante uma parcela quase inimaginável desse tempo, não havia olhos para contemplar o firmamento, mentes capazes de investigar a origem da matéria ou consciência que se interrogasse sobre o significado da própria existência. O universo seguia sua trajetória, indiferente à ausência de observadores, enquanto as leis da natureza produziam estruturas cada vez mais complexas em determinadas regiões do espaço. Em um pequeno planeta que orbita uma estrela entre centenas de bilhões de outras estrelas de nossa galáxia, a matéria adquiriu uma propriedade extraordinária: organizou-se em sistemas capazes de se manter, reproduzir e evoluir, dando origem à diversidade da vida e, depois de uma longa sucessão de acontecimentos, a seres que desenvolveram a capacidade de investigar as condições que tornaram possível sua própria existência. A humanidade surgiu como parte dessa história, não fora dela, e uma das mais profundas descobertas que fizemos tenha sido compreender que não somos espectadores independentes de uma realidade exterior, mas manifestações de um universo que, por meio de nós, tornou-se capaz de formular perguntas sobre si mesmo.

            Essa constatação, por mais fascinante que seja, não deveria alimentar a presunção de que a humanidade ocupa uma posição privilegiada na ordem cósmica, tampouco autoriza a conclusão de que a existência do universo tenha sido orientada para produzir nossa espécie. Não conhecemos evidências que sustentem a ideia de que o cosmos tenha sido concebido para nos acolher, e a história da Terra demonstra que a vida não surgiu como resultado de uma sequência de acontecimentos destinados inevitavelmente a culminar no aparecimento dos seres humanos. Nossa existência dependeu de uma combinação extraordinariamente complexa de condições físicas, químicas, geológicas e biológicas, desenvolvidas ao longo de uma história que poderia ter seguido inúmeros outros caminhos. Se as circunstâncias tivessem sido diferentes, talvez a vida jamais tivesse surgido, talvez tivesse assumido formas inteiramente distintas ou talvez a consciência, tal como a conhecemos, nunca tivesse aparecido. Precisamos reconhecer a dimensão dessa incerteza, pois ela nos coloca diante de uma questão que ultrapassa a curiosidade científica: o que significa existir em um universo cuja imensidão mal conseguimos compreender, sabendo que nossa presença nele é recente, vulnerável e, até onde podemos afirmar, ainda sem paralelo confirmado em qualquer outro mundo?

            A ciência ampliou de maneira extraordinária nossa compreensão da natureza, permitindo-nos reconstruir etapas da evolução cósmica, identificar a composição química de estrelas distantes, investigar a história da vida e reconhecer os mecanismos que sustentam o funcionamento dos ecossistemas. Entretanto, esse aumento de conhecimento não foi acompanhado, necessariamente, por uma transformação equivalente na maneira como nos relacionamos com o planeta e uns com os outros. Desenvolvemos tecnologias capazes de alterar profundamente o ambiente, produzimos quantidades imensas de riqueza e adquirimos instrumentos que ampliam nosso poder sobre a matéria, mas continuamos convivendo com guerras, desigualdades, destruição ambiental e formas de exploração que comprometem as condições de vida de milhões de pessoas. Existe, portanto, uma contradição fundamental em nossa trajetória: somos capazes de compreender processos naturais que se desenvolveram durante bilhões de anos, mas frequentemente agimos como se os sistemas que sustentam nossa existência fossem inesgotáveis, como se os recursos do planeta pudessem ser consumidos indefinidamente e como se as consequências de nossas decisões pudessem ser transferidas, sem custos, para aqueles que ainda não nasceram. A questão que emerge dessa contradição não diz respeito apenas aos limites da tecnologia, mas à maturidade de uma espécie que conquistou um poder considerável sem ter desenvolvido, na mesma proporção, a capacidade de avaliar as consequências de seu próprio comportamento.

            A Terra não é apenas o território sobre o qual construímos nossas cidades, estabelecemos nossas fronteiras e desenvolvemos nossas atividades econômicas. Ela constitui o sistema complexo do qual dependemos para respirar, obter água, produzir alimentos e manter as condições ambientais necessárias à continuidade da vida humana. A atmosfera, os oceanos, os solos, os organismos e os ciclos naturais encontram-se interligados por processos cuja complexidade ainda estamos longe de compreender integralmente. Durante muito tempo, a humanidade pôde transformar ambientes locais sem alterar de maneira decisiva os sistemas planetários, mas o crescimento populacional, a expansão industrial, o consumo de combustíveis fósseis e a exploração intensiva dos recursos naturais ampliaram nossa capacidade de interferir no funcionamento da biosfera. Hoje, as consequências dessas transformações ultrapassam fronteiras geográficas e gerações, manifestando-se na alteração do clima, perda de biodiversidade, degradação dos ecossistemas e na crescente pressão sobre recursos indispensáveis à sobrevivência. Ainda assim, continuamos alimentando a ilusão de que a natureza representa uma realidade separada da civilização, uma espécie de reservatório exterior ao qual podemos recorrer sempre que nossas necessidades aumentarem. Esquecemos, nessa concepção equivocada, que não existe uma humanidade independente das condições planetárias, porque toda atividade econômica, toda organização social e toda aspiração individual dependem da integridade dos sistemas que tornam a vida possível.

            A maior dificuldade está em reconhecer que a inteligência, por si só, não garante sabedoria, assim como o conhecimento científico não determina automaticamente o uso que fazemos dele. Compreender os mecanismos de funcionamento de uma bomba nuclear não nos torna moralmente capazes de decidir quando jamais deveríamos utilizá-la; desenvolver tecnologias de manipulação genética não resolve, por si mesmo, os dilemas éticos envolvidos em sua aplicação; identificar os fatores que contribuem para a degradação ambiental não significa que estejamos dispostos a modificar os padrões econômicos e culturais responsáveis por ela. A ciência nos permite distinguir aquilo que é possível daquilo que é impossível, formular hipóteses, testar explicações e reconhecer as consequências previsíveis de determinadas ações, mas as decisões sobre os objetivos que desejamos perseguir envolvem valores, responsabilidades e escolhas coletivas. Quando confundimos capacidade técnica com progresso moral, corremos o risco de construir uma civilização cada vez mais poderosa e, simultaneamente, cada vez mais vulnerável às consequências de suas próprias conquistas. A questão decisiva não é, portanto, saber até onde conseguiremos estender nosso domínio sobre a natureza, mas compreender se seremos capazes de desenvolver uma relação com o conhecimento que não esteja subordinada exclusivamente à competição, ao consumo e à busca incessante por poder.

            Essa reflexão adquire uma dimensão ainda mais profunda quando consideramos a possibilidade de que a vida seja rara no universo. Embora conheçamos milhares de planetas fora do Sistema Solar e saibamos que os ingredientes químicos associados à vida são encontrados em diferentes regiões do cosmos, ainda não identificamos nenhuma forma de vida extraterrestre confirmada. Não sabemos quantos mundos abrigam organismos, quantas vezes a evolução produz seres capazes de desenvolver inteligência ou quantas civilizações, caso existam, conseguem sobreviver por períodos suficientemente longos para estabelecer contato com outras formas de vida. Nossa ignorância é considerável, e seria precipitado transformar a ausência de evidências em prova de que estamos sozinhos. Entretanto, a incerteza também nos obriga a considerar uma possibilidade inquietante: a vida complexa e consciente é muito menos comum do que gostaríamos de imaginar. Se assim for, a biosfera terrestre representaria um fenômeno de importância extraordinária, não porque possamos demonstrar que seja única, mas porque constitui o único exemplo conhecido de um sistema planetário no qual a matéria produziu uma diversidade tão ampla de organismos e, entre eles, seres capazes de investigar a própria origem. Mesmo que um dia encontremos vida em outros mundos, essa descoberta não diminuirá o valor da vida terrestre, assim como a existência de outras estrelas não torna menos extraordinária a estrela que ilumina nosso planeta.

            A consciência acrescenta a essa questão uma dimensão que não pode ser reduzida à simples sobrevivência biológica. Por meio dela, tornamo-nos capazes de recordar o passado, imaginar futuros possíveis, experimentar a beleza, reconhecer o sofrimento alheio e interrogar os fundamentos de nossas escolhas. Essa capacidade, entretanto, não nos coloca automaticamente acima das demais formas de vida, nem nos concede um direito ilimitado de submetê-las aos nossos interesses. Ao contrário, quanto maior nossa capacidade de compreender as relações que conectam os organismos aos seus ambientes, maior deveria ser nossa responsabilidade diante das consequências de nossas ações. A consciência pode representar uma oportunidade para a preservação da vida, mas também pode ampliar a capacidade de destruição quando se associa à indiferença, à ambição desmedida e à convicção de que tudo aquilo que existe deve estar disponível para exploração. O fato de sermos capazes de antecipar algumas consequências de nosso comportamento torna particularmente inquietante a possibilidade de que continuemos produzindo danos que sabemos serem reais. Não se trata de afirmar que a humanidade esteja condenada ao fracasso, mas de reconhecer que o conhecimento adquirido ao longo de nossa história nos coloca diante de uma responsabilidade que já não pode ser atribuída exclusivamente à ignorância ou à incapacidade de compreender o mundo.

            O futuro da humanidade permanece indeterminado, e essa indeterminação deve ser compreendida tanto como uma fonte de preocupação quanto como uma possibilidade de transformação. As crises que enfrentamos não tornam inevitável o colapso da civilização, assim como os avanços científicos e tecnológicos não asseguram que conseguiremos superar todas as ameaças. Entre esses extremos existe um vasto campo de decisões políticas, econômicas, culturais e individuais que influenciarão as condições de vida das próximas gerações. Podemos utilizar o conhecimento científico para desenvolver formas mais sustentáveis de produção, preservar ecossistemas, reduzir desigualdades e ampliar nossa capacidade de cooperação, mas também podemos empregá-lo para intensificar conflitos, concentrar poder e acelerar a exploração de recursos naturais. Nenhuma lei conhecida da natureza garante que escolheremos o caminho mais sensato, pois a evolução biológica não nos preparou necessariamente para lidar com problemas de escala planetária, horizontes temporais extensos e consequências que ultrapassam os interesses imediatos de cada indivíduo ou sociedade. Precisamos, portanto, abandonar a crença de que o futuro será inevitavelmente melhor apenas porque dispomos de instrumentos mais sofisticados para transformá-lo. O progresso depende das finalidades que estabelecemos, dos valores que orientam nossas decisões e da disposição de reconhecer que a prosperidade de uma geração não pode ser construída à custa da destruição das condições necessárias à existência das seguintes.

            Diante da vastidão do universo, a humanidade pode parecer insignificante, uma espécie recente que habita um planeta entre incontáveis mundos possíveis, condenada a desaparecer algum dia, como tantas outras formas de vida que já existiram na Terra. Essa perspectiva, contudo, não precisa conduzir ao desespero nem à conclusão de que nossa existência carece de significado. A ausência de garantias cósmicas não elimina a importância das escolhas humanas, assim como a finitude de uma vida não torna irrelevantes os vínculos, as experiências e os conhecimentos que ela contém. O significado de nossa existência pode estar menos na posição que ocupamos no universo do que na maneira como respondemos às possibilidades que se apresentam diante de nós. Não precisamos ser o centro da realidade para reconhecer o valor da vida, nem demonstrar que somos uma espécie excepcional para assumir a responsabilidade por aquilo que somos capazes de compreender e preservar. Talvez a verdadeira grandeza de uma civilização não deva ser medida apenas pela extensão de seus territórios, pela quantidade de energia que consome ou pela complexidade de suas máquinas, mas também por sua capacidade de proteger aquilo que não pode recriar facilmente, reconhecer os limites de seu poder e construir condições para que outras gerações possam continuar investigando, questionando e descobrindo.

            É possível que, em um futuro distante, nossos descendentes observem a Terra a partir de outros mundos, reconstruam os acontecimentos que marcaram nossa época e se perguntem por que uma espécie que compreendia os riscos de suas próprias ações demorou tanto para enfrentá-los. Também é possível que essa humanidade futura jamais exista, não porque o desaparecimento de nossa espécie seja inevitável, mas porque nenhuma garantia nos protege das consequências de nossas escolhas. Entre essas possibilidades encontra-se o presente, esse intervalo breve no qual ainda podemos avaliar os caminhos que estamos construindo e reconhecer que o futuro não é uma realidade distante, separada de nossas decisões, mas o resultado cumulativo de ações que começam muito antes de seus efeitos se tornarem evidentes. A Terra continuará sua trajetória independentemente das expectativas humanas, e a vida poderá transformar-se de maneiras que não somos capazes de prever. O que está em questão é a continuidade de nossa própria história e a preservação das condições que permitem a existência de uma civilização consciente de sua origem e de sua vulnerabilidade. Se algum dia deixarmos de existir, o universo não precisará interromper seu movimento para registrar nossa ausência, afinal, as estrelas continuarão a nascer e morrer, e as galáxias seguirão suas trajetórias. Mas, neste pequeno planeta, desaparecerá uma forma de vida capaz de contemplar essa imensidão, investigar suas origens e perguntar pelo significado de estar viva.

            É precisamente essa consciência de nossa fragilidade que deveria orientar uma nova maneira de compreender o futuro. Não sabemos se estamos sozinhos no universo, não conhecemos todos os caminhos que a evolução poderia ter percorrido e tampouco podemos prever com segurança o destino de nossa espécie. Sabemos, entretanto, que a vida existe aqui, que sua história depende de condições ambientais específicas e que nossas ações já possuem uma dimensão capaz de alterar profundamente o mundo que recebemos das gerações anteriores. Essa constatação deveria ser suficiente para nos fazer reconsiderar a ideia de que o planeta é apenas um recurso a ser utilizado até que novas possibilidades de exploração se apresentem. A Terra não é um obstáculo a ser superado em nossa busca por outros mundos, nem um patrimônio cuja importância possa ser substituída pela promessa de futuras conquistas tecnológicas. É o lugar onde nossa história se tornou possível, onde aprendemos a reconhecer a diversidade da vida e de onde partimos para investigar a imensidão que nos cerca. Se desejamos compreender o universo, precisamos também compreender nossa responsabilidade dentro dele, pois a capacidade de formular perguntas sobre a existência não terá grande significado se não formos capazes de preservar as condições que permitem continuar perguntando.

            A questão fundamental, portanto, talvez não seja se a humanidade conseguirá conquistar outros planetas, prolongar indefinidamente sua existência ou descobrir todos os segredos da natureza, mas se conseguirá desenvolver sabedoria suficiente para reconhecer o valor daquilo que já possui. Uma civilização verdadeiramente consciente de sua condição não seria aquela que acreditasse ter superado sua dependência da natureza, mas aquela que compreendesse a profundidade dessa dependência e agisse de acordo com ela. Não seria aquela que transformasse o poder em finalidade, mas aquela que reconhecesse que todo poder traz consigo consequências e responsabilidades. E não seria aquela que se considerasse proprietária absoluta do mundo, mas aquela que compreendesse que sua presença na Terra constitui um episódio de uma história muito mais antiga e abrangente do que a história humana. Jamais descobriremos se o universo está repleto de outras formas de consciência ou se a nossa representa uma ocorrência excepcional, mas essa resposta, por mais extraordinária que venha a ser, não determinará sozinha o valor de nossas escolhas. O que determinará o futuro da humanidade será, em grande medida, a capacidade de transformar conhecimento em responsabilidade, inteligência em discernimento e consciência em compromisso com a continuidade da vida. A pergunta que permanece diante de nós não é apenas o que o universo poderá revelar sobre nossa origem, mas o que nossas decisões revelarão sobre a espécie que se tornou capaz de contemplá-lo e, pela primeira vez em sua história, compreender que também pode comprometer o próprio futuro.

 

 

sábado, 10 de outubro de 2026

POR QUE ACREDITAMOS EM COISAS ESTRANHAS?

POR QUE ACREDITAMOS EM COISAS ESTRANHAS?

por Heitor Jorge Lau

            Conheço quem deixe o registro da água meio aberto "para poupar água". Conheço quem coloque garrafas PET no medidor de energia elétrica "para economizar luz". Já vi garrafas com água espalhadas pelo pátio, e nem perguntei por quê. E conheço quem lave o cabelo o mínimo possível porque "estraga os fios". Todas essas pessoas têm algo em comum: acreditam de verdade no que fazem.

            A lista é longa. Tem gente que desliga a geladeira à noite para gastar menos, enquanto o motor trabalha mais para esfriar tudo de novo. Tem quem passe pasta de dente na queimadura, pó de café na ferida ou coloque uma faca embaixo do travesseiro. Tem quem jure que manga com leite faz mal e que deixar o celular carregando a noite toda estraga a bateria (o que valia para aparelhos antigos, não para os de hoje).

            Por que isso pega? Quase nunca é falta de inteligência. É uma lógica intuitiva incompleta. Se passa menos água pelo registro, gasta-se menos, parece óbvio. Só que o hidrômetro mede volume: para encher o mesmo balde, a conta será a mesma, mais devagar ou mais depressa. A garrafa no medidor também ilude, porque ele apenas mede a corrente que passa pelos fios, e nenhuma garrafa muda isso.

            Há ainda a prova que parece prova. A pessoa pôs a garrafa, a conta veio mais baixa e pronto, funcionou. Ela não considera o clima, a viagem da família, o chuveiro desligado. E se a conta sobe, a culpa é de outra coisa. Quando dá certo, o mérito é da crença; quando dá errado, nunca é dela. Muitas dessas ideias também carregam um grão de verdade. Xampu em excesso pode ressecar o cabelo, e daí a crença exagera até "lavar estraga". É esse pedaço de verdade que a torna tão difícil de derrubar.

            E o mais curioso: se alguém que entende do assunto explica o contrário, a pessoa muitas vezes nem ouve. A crença deixou de ser opinião e virou identidade. Ela é "aquela que economiza", "aquele que entende de cabelo". Admitir o erro é admitir que passou anos enganada, e ninguém gosta disso. Além do mais, o "eu vi com meus olhos" pesa mais do que qualquer estudo. E o especialista, às vezes, fala de cima para baixo, com arrogância e jargão, o que faz a pessoa defender o território em vez de pensar no argumento. Acreditar na bobagem não custa nada. Rever a crença custa reconhecer o erro e recomeçar.

            Mas antes que alguém ria dos outros, vale a pergunta: e as minhas crenças? Quem nunca colocou garrafa em medidor também carrega as suas, do seu jeito. Aquela certeza que nunca testou, aquela verdade herdada de alguém confiável, aquela convicção da qual não abre mão nem diante de bons argumentos... e isso vale para crenças de todo tipo, das domésticas às ideológicas. As nossas sempre nos parecem razoáveis, por definição.

            No fim, o que separa quem muda de ideia de quem não muda não é a inteligência. É a disposição de testar e de aceitar ser corrigido sem se sentir humilhado ou desmerecido.

 

A CURIOSIDADE DA CRIANÇA DE HOJE, É O PENSAMENTO CRÍTICO DO ADULTO DE AMANHÃ.

A CURIOSIDADE DA CRIANÇA DE HOJE,

É O PENSAMENTO CRÍTICO DO ADULTO DE AMANHÃ.

por Heitor Jorge Lau

            Há iniciativas educacionais que merecem ser observadas para além dos resultados imediatos que apresentam, pois seus maiores efeitos não aparecem necessariamente nas avaliações escolares, nos certificados recebidos ou nos números divulgados pelas instituições. Seus frutos se manifestam silenciosamente, ao longo dos anos, na maneira como uma criança aprende a observar o mundo, formular perguntas, lidar com as próprias dúvidas e construir explicações para aquilo que ainda não compreende. A Feira de Ciências — Inovação e Sustentabilidade da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), ao selecionar 120 trabalhos desenvolvidos por estudantes de diferentes etapas da educação, representa uma oportunidade de refletir sobre a importância dessas experiências para a formação intelectual e humana das novas gerações.

            Quando uma criança começa a investigar um fenômeno, seja ele relacionado à natureza, à tecnologia ou aos desafios da vida cotidiana, alguma coisa importante acontece em sua maneira de pensar. O mundo deixa de ser apenas um conjunto de coisas prontas, cujos significados são apresentados pelos adultos, e passa a se transformar em um território de descobertas. Uma planta que cresce em determinadas condições, a água que se modifica conforme a temperatura, o comportamento de pequenos animais ou o funcionamento de um objeto comum podem despertar perguntas que conduzem a novas observações. Nesse movimento, a criança começa a compreender que conhecer não significa apenas receber informações, mas também investigar, comparar, experimentar e procurar explicações consistentes para aquilo que desperta sua curiosidade.

            Esse processo guarda uma analogia interessante com o próprio desenvolvimento infantil. Assim como o corpo cresce por meio de transformações sucessivas, a mente também amplia suas capacidades à medida que encontra experiências que a desafiam. Uma criança que recebe respostas prontas para todas as perguntas pode acumular informações sem necessariamente aprender a examiná-las. Em contrapartida, aquela que é estimulada a investigar desenvolve uma relação mais ativa com o conhecimento. Aprende que uma dúvida não representa uma deficiência, mas o ponto de partida de uma descoberta... que uma hipótese pode ser modificada diante de novas evidências... e que reconhecer um erro constitui uma oportunidade de aprendizagem, não um motivo para constrangimento.

            É exatamente nessa passagem entre a curiosidade espontânea e a investigação organizada que iniciativas como as feiras de ciências adquirem um valor extraordinário. Ao transformar uma pergunta em um projeto, o estudante precisa organizar ideias, estabelecer objetivos, selecionar materiais, observar resultados e encontrar uma maneira de comunicar aquilo que descobriu. Mesmo quando o trabalho é simples, essas etapas mobilizam capacidades que ultrapassam os limites de uma disciplina escolar. A criança exercita a atenção, a memória, o raciocínio lógico, a criatividade e a persistência, enquanto aprende a estabelecer relações entre diferentes informações. Mais do que reproduzir um conteúdo apresentado em sala de aula, ela começa a experimentar o significado de produzir conhecimento.

            Existe ainda uma dimensão particularmente relevante nessa experiência: a necessidade de explicar o próprio trabalho a outras pessoas. Quando um estudante apresenta sua pesquisa diante de colegas, professores, avaliadores ou visitantes, precisa organizar o pensamento para torná-lo compreensível. É nesse momento que a aprendizagem individual encontra a dimensão social do conhecimento. Ao ouvir perguntas, receber observações e confrontar interpretações diferentes, a criança descobre que suas ideias podem ser examinadas, aperfeiçoadas e enriquecidas pelo diálogo. Desenvolve, assim, não apenas a capacidade de argumentar, mas também a disposição para escutar, reconhecer limites e considerar perspectivas que não havia percebido anteriormente.

            Essas experiências são especialmente importantes durante a pré-adolescência, período em que o jovem amplia progressivamente sua capacidade de abstração, começa a questionar explicações antes aceitas sem resistência e procura compreender melhor o próprio lugar no mundo. O pensamento crítico não surge automaticamente com a idade, assim como a maturidade intelectual não decorre exclusivamente da quantidade de informações acumuladas. Ambos dependem, em boa medida, das oportunidades de exercitar o raciocínio, enfrentar problemas, sustentar argumentos e rever conclusões. Uma escola que abre espaço para a investigação oferece ao estudante condições para experimentar essas capacidades em desenvolvimento, respeitando seu ritmo e incentivando sua autonomia.

            Há também uma contribuição importante para a formação emocional. Desenvolver um projeto exige lidar com dificuldades, resultados inesperados, limitações de materiais e momentos em que as coisas não funcionam como foram planejadas. A criança aprende, na prática, que nem todo esforço produz imediatamente o resultado esperado e que a persistência precisa caminhar junto com a capacidade de modificar estratégias. Essa aprendizagem fortalece a confiança baseada na experiência, diferente daquela sustentada apenas por elogios. O estudante passa a reconhecer que é capaz de enfrentar desafios, procurar alternativas e continuar aprendendo mesmo quando o caminho se mostra mais difícil do que imaginava.

            No atual modelo de sociedade, marcada pela circulação acelerada de informações, essa formação assume uma importância ainda maior. Crianças e adolescentes entram em contato diariamente com afirmações, imagens, vídeos e explicações que disputam sua atenção, nem sempre acompanhados de evidências confiáveis. Aprender a pensar criticamente significa desenvolver a capacidade de perguntar de onde vem uma informação, quais elementos sustentam determinada afirmação, se existem explicações alternativas e quais interesses podem estar envolvidos em sua divulgação. Uma feira de ciências, evidentemente, não resolve sozinha os desafios da desinformação, mas contribui para construir uma disposição intelectual indispensável: a de não confundir uma afirmação convincente com uma afirmação comprovada.

            A sustentabilidade, presente no nome da iniciativa da Unisc, acrescenta outra dimensão a essa reflexão. Investigar questões ambientais pode ajudar o estudante a compreender que os fenômenos naturais não existem isoladamente e que as ações humanas produzem consequências que ultrapassam o momento e o lugar em que ocorrem. Ao estudar o solo, a água, a vegetação, os resíduos ou as relações entre os seres vivos, a criança encontra oportunidades de relacionar conhecimento científico e responsabilidade coletiva. A natureza deixa de ser apenas um cenário observado à distância e passa a ser compreendida como um sistema do qual fazemos parte, cuja preservação depende de escolhas fundamentadas e de uma percepção mais ampla das relações entre sociedade e ambiente.

            Naturalmente, não se deve esperar que toda criança participante de uma feira científica se transforme em pesquisadora ou cientista. O valor dessas experiências não está em antecipar uma profissão, mas em ampliar as possibilidades de desenvolvimento de cada estudante. Mesmo aquele que seguirá caminhos inteiramente diferentes poderá levar consigo a capacidade de investigar problemas, avaliar argumentos, reconhecer informações frágeis e tomar decisões com maior consciência. São habilidades que encontram aplicação na vida profissional, nas relações sociais, no exercício da cidadania e na maneira como cada pessoa interpreta a realidade.

            Portanto, os 120 trabalhos selecionados pela Feira de Ciências — Inovação e Sustentabilidade não representam meramente uma coleção de pesquisas escolares. Representam também 120 oportunidades de exercitar a curiosidade, estimular a autonomia intelectual e mostrar às novas gerações que o conhecimento é uma construção permanente. Naturalmente, os resultados mais profundos desse processo não podem ser medidos apenas pelo número de projetos apresentados ou pelas classificações obtidas. Eles dependem da continuidade dessas experiências, da qualidade da orientação oferecida e da disposição das instituições educacionais para preservar espaços nos quais perguntar, experimentar e pensar sejam atividades tão valorizadas quanto memorizar conteúdos.

            Uma sociedade que deseja cidadãos mais conscientes, críticos e reflexivos deveria estimular mentes pensantes muito antes da idade adulta. Precisa oferecer às crianças oportunidades para descobrir que a realidade pode ser examinada, que as ideias podem ser questionadas e que compreender um problema exige mais do que aceitar a primeira resposta disponível. A mente crítica não nasce pronta: desenvolve-se por meio de estímulos, experiências, diálogos e desafios que ensinam o indivíduo a pensar por conta própria sem desprezar o conhecimento construído pelos outros.

            O maior mérito de uma iniciativa como essa está naquilo que não aparece nas fotografias, nos painéis ou nas apresentações: a transformação silenciosa que ocorre quando uma criança percebe que é capaz de formular uma pergunta relevante e procurar, com os próprios recursos e a orientação necessária, uma resposta fundamentada. Nesse instante, não está apenas aprendendo ciências. Está descobrindo uma maneira de se relacionar com o mundo, com as outras pessoas e consigo mesma.

            Investir na curiosidade infantil é investir na qualidade do pensamento que acompanhará essa criança durante toda a vida. E uma educação que ensina a perguntar, investigar e refletir oferece algo que ultrapassa qualquer resultado escolar imediato: as condições para que o conhecimento deixe de ser uma coleção de respostas decoradas e se transforme em instrumento de compreensão, autonomia e liberdade intelectual.

 

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QUANDO O HÁBITO SE TRANSFORMA EM PRISÃO: SOMOS DONOS DAS NOSSAS ESCOLHAS? por Heitor Jorge Lau             Existe uma força silenciosa que p...