terça-feira, 15 de setembro de 2026

TÓPICOS SOBRE PSICANÁLISE

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ASSOCIAÇÕES LIVRES

 

ASSOCIAÇÕES LIVRES

           

            Freud, o Pioneiro

            A Psicanálise, muito embora tenha sido exaustiva e profundamente estudada por Freud, dedicação que lhe atribuiu o título de Pai da Psicanálise, pode ser considerada como um “produto” criado e aprimorado por vários profissionais no decorrer dos tempos (fato que, nas devidas proporções, ainda continua). Não há como negar que terapeutas como Charcot e Breuer, dentre outros não menos importantes (os outros, mesmo figurando como opositores de parte ou do todo das teorias de Freud), contribuíram contundentemente para os estudos, direcionamentos e redirecionamentos do constructo da Psicoterapia. Freud delineou um formato inédito de construir conhecimento a partir do seu trabalho, a ponto de provocar uma ruptura nos saberes até então tidos como eméritos no ocidente. Foi a partir do descaso da medicina com as Neuroses Histéricas que ele, Médico Neurologista, provocou uma verdadeira descontinuidade nas teorias da ciência e do conhecimento da época. Tamanha a influência do seu trabalho pode ser percebida em âmbitos da filosofia (desde aquela época) a neurociência (nesta época, p.ex.). É relevante perceber que a aplicação da Técnica Psicoterápica envolve os princípios da hermenêutica sucedidos por práticas clínicas. Esta característica permite ao terapeuta a confiança e a quase certeza de encontrar a gênese do problema e as possibilidades de cura.

            O Marco Zero

            Seria possível conceber a permanência de Sigmund Freud na instituição de saúde Salpêtrière, local onde Charcot atuava, como marco zero da Psicanálise. Neste ambiente Jean-Martin Charcot servia-se da hipnose para buscar compreender os sintomas dos pacientes. Ao Pai da Psicanálise coube o mérito maior de questionar que a Histeria não poderia mais ser apenas observada como uma enfermidade originária de condições orgânicas desfavoráveis ou até mesmo por se tratar de um simulacro, ótica tradicionalmente aceita na época. Freud, logo após a sua passagem pela instituição, semeou e amadurou o ato de escutar o paciente ao invés de apenas observá-lo, inovação esta, que transportou a Histeria da esfera orgânica para a psíquica e que, gradativamente, instigou o abandono da Hipnose e Sugestão.

            Psicoterapia pela Associação Livre

            Desta trajetória resplandece a Cura pela Fala, especificamente pelo tratamento despendido no caso de Anna O., reconhecido como de sucesso, paciente de Josef Breuer (médico que surge na vida de Freud). A Breuer pode ser creditado o sucesso do Método Catártico, processo que consistia em reviver os cenários traumáticos, resultando na Ab-reação (Freud e Breuer, criaram o termo Ab-reação para referenciar o ato de neutralizar reações patogênicas por intermédio da Catarse). Os trabalhos psicoterápicos que sucederam o de Anna O. contribuíram sistematicamente no sentido de interligar e sobrepor técnicas, práticas e teorias. Logo de início as teorias de Freud não se distanciavam muito do colega de Salpêtrière, uma vez que dentre os seus primeiros artigos sobre Histeria, as enfermidades eram correlacionadas com fatores meramente hereditárias, manifestas a partir de experiências traumáticas. Freud, em seguida, afirmou com intensa convicção que os fatores hereditários não deveriam ser percebidos como os causadores únicos e exclusivos das Neuroses, mas que outras condições poderiam suscitar Histerias (os traumas, p.ex.).

            Esta revelia com relação as teorias, até então creditadas, obriga Freud a encontrar fundamentos para justificar o seu ponto de vista científico. Neste interim o Pai da Psicanálise cogita a chance de que algum fator de natureza sexual pudesse, também, figurar como causa das Neuroses Histéricas. Um tempo após Freud ter se desvinculado de Salpêtrière e ter trabalhado com Breuer, a associação de muitos pontos científicos em comum entre eles origina estudos mais aprofundados sobre a Histeria, e culmina no termo Conversão. A Conversão seria compreendida como a expressão sintomática da Neurose, ou seja, o corpo “falando” através de reações intensas como paralisias (ou menos intensas). Em síntese, o trauma que se alojasse no inconsciente do paciente por “Recalcamento” se manifestaria sob a “roupagem” de uma enfermidade orgânica como paralisia parcial ou total de um membro, tosse intensa, crises emocionais, por exemplo. O Recalque diz respeito a repressão ou mecânica de defesa da psique do paciente, o qual rejeita tudo aquilo que lhe agride psicologicamente e que se manifesta através de expressões sintomáticas ou sonhos (que, aliás, os Sonhos também são citados por Freud como manifestações dos desejos do inconsciente).

            A Cura pela Fala que posteriormente foi denominada de Associação Livre, é uma investigação que faz emergir das profundezas do inconsciente os “sinais” que perturbam a psique do acometido por comportamentos ou sensações perturbadoras. Ao Psicanalista cabe, então, a capacidade (esta deveras aguçada) de conectar e compreender tais sinais sem eliminar totalmente os sintomas sintomáticos até o final do tratamento. Esse Tratamento Psicoterápico possibilita o abrandamento gradativo dos sintomas do paciente a partir do ato de relembrar (e por que não entender como reviver) sensações relacionadas aos fatos históricos que deixaram “cicatrizes” traumáticas e inacessíveis na psique. Um aspecto deveras importante notabilizado pelo Pai da Psicanálise foi que nenhuma, absolutamente nenhuma, exposição do paciente por intermédio do processo investigativo deveria ser negligenciada ou ignorada. Cada detalhe avistado nas Associações Livres do paciente, método que Freud desenvolveu após presenciar a técnica de Hipnotismo empregada por Charcot  e Breuer para curar os sintomas da Histeria de Conversão (Conversão é a transmutação de um indício psíquico em sintoma orgânico - cegueira, paralisia total ou parcial de membros, contraturas musculares, e outros), compõe um mosaico de informações dispersas e alojadas no inconsciente que servirão de substrato para análise e continuidade da terapia.

            É possível afirmar que o Método de Associação Livre obtém sucesso porque o paciente expressa tudo que surgir à mente sem a preocupação de sentido ou relevância. As revelações, inevitavelmente, estarão dentro do contexto que está sendo investigado. Com o emprego desta técnica o paciente faz emergir aspectos traumáticos e ocultos durante a sessão (“diálogo”). O ocultamento, por assim dizer, dos episódios traumáticos do paciente são transportados do plano consciente para o inconsciente, processo denominado de Recalcamento. Assim, todos os incidentes traumáticos alojados no inconsciente devido ao recalque compõem os sintomas da Neurose Histérica. A prova mais contundente que Freud percebeu sobre o sucesso da Associação Livre foi o desaparecimento dos sintomas orgânicos diante do ato de rememorar, “conduzir” o paciente através da terapia em direção à lembrança, provocando o desabrochar das emoções, o caminho da Catarse.

            O processo de Associação Livre, quando conduzido de forma que o paciente sinta confiança e liberdade para expressar tudo aquilo que lhe ocorrer à mente, sem receio de que o dito possa ser criticado, ignorado ou rejeitado por ser irrelevante ou sem sentido obtém resultados surpreendentes (segundo histórico). É importante ter em mente que a escuta atenta e analítica das revelações do paciente deve ser isenta de qualquer forma de expectativa por parte do analista, mesmo porque o rumo, o direcionamento da análise é determinado pelo próprio paciente. Enfim, ao analista compete afastar o máximo possível o seu paciente dos sentidos da lógica para que ele revele os sinais que formam (coerentemente) os traumas do inconsciente.

 

O APARELHO PSÍQUICO

 

O APARELHO PSÍQUICO

(ICs-PCs-Cs e ID-Ego-Superego)

            Na insistente e incansável busca pelo entendimento das origens dos problemas dos seus pacientes e de colegas da profissão, Sigmund Freud percebera que a mente do ser humano se constituía de dois estados, o Estado de Consciência e o Estado de Inconsciência, existindo, portanto, um fracionamento da mente em duas partes distintas, porém vinculadas. O primeiro fora reconhecido como um Estado Mental Normal, e o segundo, o Estado Mental Hipnóide.

            Modelo Topográfico do Aparelho Psíquico

            Primeira Tópica

            No decorrer dos seus estudos o Psicanalista cria uma teoria inovadora primeira, a Teoria Topográfica. Freud percebe que os processos mentais eram mais complexos do que poderiam parecer, uma vez que eles ocorriam em instâncias separadas, sendo um influenciado pelo outro. Neste interim, o Pai da Psicanálise, apresenta uma tríade de sistemas interconectados a qual referenciara como Aparelho Psíquico. Os três sistemas seriam denominados de: - Ics Inconsciente; - Pcs Pré-consciente; e, - Cs Consciente.

            O Sistema Inconsciente percebido como um Processo Primário, é o mais vetusto dentre os demais constantes no Aparelho Psíquico, constituído de recordações e ficções remotas recalcadas. O Inconsciente, conduzido pelo Princípio do Prazer, intenta fazer emergir as representações pulsonais intensamente catexizadas, na tentativa de buscar o prazer. A tarefa de compreender as representações do Inconsciente é verdadeiramente difícil, uma vez que ele não expressa coerência, um local específico ou casualidade. Tudo aparenta desordem temporal e espacial.

            O Sistema Pré-consciente, sistema que atua diretamente ligado a Consciência, é o responsável direto por reprimir os conteúdos do Inconsciente que poderiam causar tormentos avassaladores a mente consciente. O que impede as representações recalcadas de emergirem na consciência é o obstáculo da Censura (Freud identificou esta força no Aparelho Psíquico e assim a denominou). É exatamente neste sistema que a linguagem toma forma, se estrutura.

            O Consciente capta todas as representações oriundas do interno e externo de forma concomitante. Seria importante ressaltar que o consciente recebe as representações do pré-consciente, todavia, do inconsciente não. Freud considerou o funcionamento e interação do Consciente e Pré-consciente como sendo um Processo Secundário, capaz de avaliar a satisfação, o retardamento e/ou inibindo as descargas pulsionais, criando tolerância ao desprazer. Acontecimentos ou sentimentos podem desaparecer do sistema consciente migrando para o pré-consciente que por sua vez podem alojar-se no inconsciente.

            Modelo Estrutural

            ou Dinâmico do Aparelho Psíquico

            Segunda Tópica

            Este modelo se constitui a partir de três instâncias psíquicas: O Id, Ego e Superego. Possuem atribuições específicas, porém, a comunicação entre elas acontece de forma ininterrupta e a influência que uma exerce sobre a outra é constante. Este conjunto de instâncias, na forma como se compõem, organizam a maneira como a pessoa irá relacionar-se com a humanidade - Teoria da Personalidade.

            O Id, imerso totalmente no inconsciente, é percebido como um apanhado de representações pulsionais e inconscientes de origens hereditárias, portanto, inatas ao indivíduo. Por outro lado, também obtidas e recalcadas. Segundo Freud, sob o olhar econômico, o Id seria a “fonte e o reservatório” da força psíquica do ser humano, capaz de impulsionar ou motivar o Ego e Superego. Ao analisar o Id sob uma perspectiva topográfica (Modelo Topográfico), esta instância corresponde muito com o Inconsciente do Modelo Topográfico, uma vez que, também é destituído de razão e equilíbrio com o universo exterior. Busca, igualmente (comparado com o Ics), saciar tenções sem levar em conta qualquer princípio moral, social ou racional. É o recipiente de toda a energia psíquica e da libido.

            O Ego, também imerso parcialmente no inconsciente, todavia, com a sua maioria consciente, é conduzido essencialmente pelo Princípio da Realidade, cuja Função Essencial seria adequá-lo ao mundo externo. O seu desenvolvimento ocorre ainda na infância e a gênese da personalidade do ser humano acontece neste período. Esta instância possui a árdua missão de contentar os impulsos do Id e as imposições do mundo exterior sem deixar de considerar as exigências morais sugeridas pelo Superego. Em síntese, o Ego promove incansavelmente o equilíbrio. É relevante citar que o Ego protege o Consciente (Cs) do sujeito de forma a impedir que as representações que foram recalcadas se manifestem e provoquem ora “torturas” psíquicas.

            O Superego, imerso parcialmente no inconsciente, procura a partir da internalização da autoridade dos pais, instituir penas, preceitos e modelos com o intuito de promover o equilíbrio moral e social. O seu desenvolvimento acontece a partir do Ego, período que Freud referenciou como Período de Latência. Seria possível compreender que o Superego detém a importante tarefa de policiar e ajuizar o Ego e controlar as pulsões do Id.

            Mecanismos de Defesa

            A reincidência de embates com grandes proporções entre o Id, Ego e Superego desenvolvem estados mentais psicóticos ou neuróticos. O Ego, instância incansável do Aparelho Psíquico, possui os seus Mecanismos de Defesa, cujos principais objetivos são diminuir as inquietações psíquicas internalizadas. Seriam eles:

            - Recalcamento ou Repressão: o enfrentamento entre os impulsos do Id e os acenos morais do Superego fazem insurgir este mecanismo. Neste momento o Ego trata de armazenar o desprazer nas “sombras” do Inconsciente.

            - Negação: socorre um Ego débil enjeitando a realidade por algo imaginário.

            - Renegação/Denegação/Recusa: seria a negação em menores proporções. Mesmo tendo consciência da existência da verdade, a renega. Uma fração do Ego é afetado.

            - Regressão: acontece diante da incapacidade do Ego de controlar determinada circunstância ameaçadora.

            - Conversão Orgânica: de acordo com Freud, uma manifestação de ordem física expressa um “simbólico associado” a uma pulsão de ordem primária, neste caso, de origem sexual.

            - Projeção: arremessa para o exterior as representações que o Ego não consegue aceitar.

            - Deslocamento: no impedimento de direcionar determinados impulsos sexuais ou coléricos para um objeto, os mesmos são redirecionados para outro objeto.

            - Racionalização: diante da impossibilidade de compreensão psíquica, o Ego consciente elabora um novo evento racional para substituir o incompreendido.

            - Formação Reativa: face a uma representação que fora recalcada, este mecanismo constrói e a substitui por outra contrária.

            - Sublimação: algumas pulsões de caráter destrutivo são aprimoradas com o intuito de “vesti-las com uma roupagem” socialmente aceitável.

           

            BREVES CONSIDERAÇÕES FINAIS

            A partir da síntese anteriormente exposta, é perceptível que os processos do Aparelho Psíquico isentam o indivíduo de Neuroses Psíquicas. Contudo, este equilíbrio somente acontece por intermédio da correta interação do Ics, Pcs e Cs. Desta feita, a interação entre o Id, Superego e Ego não fogem à regra. Portanto, o Aparelho Psíquico consiste de um complexo sistema que necessita de sincronia, a fim de propiciar o equilíbrio psicológico ao ser humano.



O TRATAMENTO DE ENSAIO

 

O TRATAMENTO DE ENSAIO

            O novo paciente, as novas origens

            Este texto começa com a seguinte indagação: existe uma técnica específica e certeira para a terapia psicanalítica? A resposta para esta simples questão poderia ser um exato “sim”. Contudo, é muito importante e prudente lembrar que as estruturas sociais mudaram e, agora mais do que nunca, continuam mudando numa dinâmica deveras acelerada, quem sabe até desenfreada. O método outrora e atualmente utilizado com sucesso acentuado, encontra diante de si um novo paciente, singularizado por um universo de contextos sociais multifacetados, ou seja, as origens dos alvoroços psicológicos parecem ter se multiplicado.

            Obviamente que a época na qual a terapia psicanalítica se restringia às mulheres histéricas ficaram há muito para trás. Todavia, com o transcorrer dos tempos o rol de acometidos por perturbações psicológicas se dilatou para todos os gêneros, faixas etárias e outros transtornos, sejam eles fóbicos, psicóticos ou obsessivos. Não é de agora que os distúrbios da psique – depressão, baixa autoestima, estresse, síndrome do pânico, bulimia, por exemplo – se manifestem sem causa aparente e a busca por respostas, muitas vezes, sequer são investigadas.

            Novas convenções (ou concepções)

            É relevante reconhecer que algumas convenções ou concepções contemporâneas (mais atuais) como a reformatação do núcleo familiar, cuja estrutura fora drasticamente alterada da convencional vida matrimonial sob o mesmo teto, e com personagens bem definidos (avós, pai, mãe, filhos), provocam uma verdadeira confusão na tenra mente de um jovem filho. Levando-se em conta que a crise de identidade (aqui caracterizada) acontece em nível individual, grupal e social. Se por um lado existem novíssimos paradigmas para determinados comportamentos, também existem padrões que perduram no transcorrer dos tempos. Talvez neste choque de preceitos aconteça alguma desordem psíquica sobre o que é certo ou errado (não se levando em conta, neste parágrafo, o conceito literal ou convencional de certo e errado).

            Outro aspecto que poderia ser levado em conta diz respeito ao sentimento de imediatismo que se estabeleceu, principalmente na mente mais jovem, a partir do mundo virtual que tomou conta das relações sociais e profissionais. As relações pautadas por tradicionais valores foram paulatinamente substituídas por relações surreais, ou seja, a separação ou a diferenciação ente realizar e sonhar foram gradativa e absolutamente extintas. Quando tudo é possível com esforço mínimo ou nulo e de imediato (através da virtualidade), a negação e o desapontamento (estes, sim, reais) tornam-se insuportáveis. Desta feita não se faz necessário adentrar no viés dos prováveis danos psíquicos oriundos do exposto. Um paciente que porventura buscar ajuda psicanalítica por não suportar o inalcançável, anseia desesperadamente pela solução, esta sim, imediata. Os parágrafos anteriores mencionaram de forma abreviada que as relações entre os indivíduos e eles próprios mudaram. Mas, e o Analista? Também mudou? Diante de um mundo de tantas incertezas, esta resposta é certeira: sim! O Psicanalista, inevitavelmente, sofre uma reciclagem (querendo ou não, aceitando ou não) conjuntamente com as mutações comportamentais individuais e sociais.

 

            A entrevista

            Segundo Freud, o Tratamento de Ensaio ou Entrevista, não seria a primeira sessão da análise porque neste contato preliminar intercorre um “ensaio” de Associação Livre e Pré-Transferência (e também Contratransferência), capaz de fornecer subsídios para a tomada de decisão sobre aceitar ou rejeitar o possível paciente. O marco inicial seria, isto posto, ao final da Entrevista, contanto que o Analista concorde em tratar o paciente, diante de um diagnóstico favorável, é claro. Esse processo decisório é deveras complexo, uma vez que tanto o Analista quanto paciente não sabem integralmente o que está por vir. Por mais previdente que possa ser o diagnóstico, o Analista não terá a absoluta certeza da trama existente no inconsciente do paciente e a extensão da psicopatologia. O paciente, por sua vez, não detém plena consciência de como a terapia irá se desdobrar e muito menos o tempo necessário para tal. Existe uma possibilidade latente de que o paciente vislumbre nada mais do que a mera eliminação de alguma manifestação psicossomática, ao passo que o Analista pretenda (como deve ser) ir muito além (buscar a origem). O Psicanalista precisa ser dotado de uma capacidade de observação intensamente aguçada, capaz de perceber no discurso inicial do pretenso paciente o grau de motivação e comprometimento para buscar a origem e solução do seu tormento psíquico. A prudência acena que na menor sombra de dúvida, sobre aceitar ou não um paciente, o Analista realize mais de um Tratamento de Ensaio para uma tomada de decisão.


             A motivação decisória – ANALISTA / PACIENTE

            Ao postar-se diante de alguém que lhe procurou, o Analista deve estar ciente das motivações que irão impulsioná-lo ou encorajá-lo a aceitar o “entrevistado” como seu paciente. Uma decisão pautada apenas pela relação “sou Analista, logo, analiso” pode ser um impulso arriscado. As variáveis que influenciam o propósito poderiam ser financeiras, científicas ou até mesmo devido ao fato de o indivíduo ter sido encaminhado por alguém muito próximo ao Psicanalista. Enfim, uma vez evidente ao Terapeuta as suas motivações, ele pode determinar o tipo de terapia (para Psicose ou Neurose, por exemplo) e o rumo a ser adotado. Entretanto, em hipótese alguma, o Analista pode ser negligente com relação aos seus limites físicos, intelectuais e estruturais. O pretenso paciente, por sua vez, precisa sentir-se acolhido, compreendido. A forma como o Psicanalista conduzir a Entrevista poderá fazer toda a diferença no momento de o paciente decidir prosseguir “a deitar-se no divã”. Afinal, ele também detém o direito de contratar ou não os serviços do profissional da Psicanálise que lhe foi indicado ou encontrado.

 

            CONSIDERAÇÕES FINAIS

            Nesta síntese sobre Tratamento de Ensaio fica clara a intenção primordial do processo. Apesar da entrevista preliminar deter as mesmas características da Terapia Psicoterápica, propriamente dita, é necessário reconhecer que elas são paradoxalmente dependentes e distintas. Dependentes porque uma entrevista imprevidente e impulsiva pode resultar na decisão de aceite de um paciente impróprio (alguém com Psicose em estado crítico, por exemplo). Distintas porque ocorrem em momentos específicos, sendo que a terapia pode acontecer ou não. Quem cria a demanda de análise é o terapeuta, não o demandante, e esta demanda deve ser delineada por sintomas analisáveis. Um sintoma analisável é aquele que se manifesta por intermédio de um recalcamento emergido das profundezas obscuras do inconsciente. Portanto, o Tratamento de Ensaio é mais do que importante, é indispensável.

 


ANTROPOLOGIA e PSICANÁLISE

 

ANTROPOLOGIA E PSICANÁLISE

            O tema eleito para essa exposição do conhecimento adquirido, Antropologia e Psicanálise, surgiu ao final da leitura do material didático Libido e Sexualidade. Cabe ressaltar que a redação que segue comporta uma composição díspar dos textos anteriores. A característica básica são os recortes de artigos e uma pequena parte dos textos para estudos, inseridos no contexto no formato autêntico, uma vez que o autor desse trabalho considerou importante manter a arquitetura original por se tratar de um arquétipo acadêmico.

            Para introduzir o conteúdo uma transcrição direta importante: “O psicanalista deve compreender perfeitamente a natureza e a função da cultura considerada em si mesma [...]”. (Essais d’ethnopsychiatrie générale, p. 337-228).

            Existe uma forma (entre outras) de estudar a fundo a natureza do ser humano: através da Antropologia. O termo em questão surge a partir da congregação de duas palavras de origem grega, Anthropos, cujo significado é ser humano, e Logos, que significa razão ou conhecimento. Assim sendo, a associação delas já explica ou remete ao seu significado de estudo do Homem na vida sociável (Politika). Trata-se de uma ciência que estuda e busca entender as coletividades, o ser humano e seu comportamento em sociedade (não confundir com Sociologia que detém outro objeto de estudo). Uma vez dito que a Antropologia investiga o comportamental em sociedade, surge outro termo: a Antropologia Social, ciência que explora as relações e organizações políticas e sociais mais aprofundadamente naquilo que concerne as relações homem-sociedade. Existem vertentes científicas que percebem quatro âmbitos distintos na Antropologia: - Antropologia Física (ou biológica); - Antropologia Arqueológica; - Antropologia Linguística; e, - Antropologia Cultural. Nessa exposição a última ficará em evidência, uma vez que o intuito é promover um recorte e correlatar cultura com a psicanálise. Compete a Antropologia Cultural, de vertente norte-americana, pesquisar traços culturais que envolvem características linguísticas e religiosas, mitos e ritos, crenças e valores, dentre outros significantes não menos relevantes. A fim de contextualizar essa composição faz-se necessário enfatizar que uma das grandes áreas de estudo da Antropologia Cultural é a Etnografia. Esse campo científico vem ao encontro da Psicanálise porque é reconhecido como Método da Observação Participante (apenas observar o indivíduo no seu habitat). Como consequência da observação direta do grupo focal por parte do Antropólogo ou Etnógrafo (designação esta do observador que faz uso da Etnografia), emergem dados e informações importantes que serão confrontadas com teorias comportamentais (ou surgirão novas teorias).

            O Pai da Psicanálise, Freud, salientou que um símbolo “tira sua significação do contexto, da sua relação com outros símbolos, que por sua vez só adquirem sentido relativamente a ele. Esta segunda via pode ser fecunda, desde que a técnica simplista das associações livres ocupe o lugar que lhe compete num esforço global que visa reconstituir a história pessoal de cada sujeito, a do seu meio familiar e social, a sua cultura.... Procuraria assim compreender-se um indivíduo do modo como o etnógrafo procura compreender uma sociedade”.

            O parágrafo anterior sugere ou incita uma reflexão sobre quem é o criador e quem viria a ser a criatura, ou seja, a família que molda a sociedade que por sua vez modela a cultura, ou a ordem inversa? Por ora, adotar a ordem inversa talvez seja a escolha mais apropriada para a exposição que o presente texto se propõe. Assim, se a cultura desenha e compele a sociedade a se comportar dentro de um modelo delineado por costumes históricos, nada mais sensato do que recordar que Sigmund Freud influenciou, por intermédio das suas pesquisas, muitos profissionais da Psicanálise a estudar a gênese dos símbolos culturais (que abarcam toda espécie de praxe). Ícones da história como Roheim e Fromm (dentre outros), como exemplo, foram considerados Antropólogos Psicanalistas. Seria inadmissível obliterar dos renomados anteriormente citados o nome de Georges Devereux, reconhecido como sendo o precursor da Etnopsicanálise (personagem que inspirou a escolha deste tema – dentre tantos outros que acenam relevância). A Etnopsicanálise conjuga Antropologia e Psicanálise - Antropologia Psicanalítica. Este formato - um diálogo multidisciplinar entre as teorias e práticas das Ciências Sociais e de Freud – permitiu ineditamente a compreensão das manifestações do ser humano por intermédio da Psicanálise e Etnologia, simultaneamente.

            Diante dos estudos sobre a influência exercida pelo meio social e cultural sobre o Aparelho Psíquico, seria sensato e prudente reconhecer que a Transferência ou os Mecanismos de Defesa do Ego, como o Recalcamento, a Renegação e Sublimação, por exemplo, funcionem de forma diferente em culturas diferentes. Portanto, “(...) psiquiatras e psicanalistas deveriam se interessar pelo meio cultural específico do paciente e se esforçar para compreender suas produções em função do meio dele (paciente) e não do seu (psiquiatra)”.

            Aparentemente esta recomendação é um tanto dificultosa de ser exercida na prática, afinal, aculturamento não se efetiva da “noite para o dia”. Seria preciso uma imersão significativa nos diversos contextos culturais existentes nas sociedades acessíveis à terapia. Mesmo dentro de uma região especifica e bem delimitada, ainda assim, existem “subculturas”, ou melhor dizendo, culturas dentro de culturas. Em determinadas regiões, os traços culturais de um bairro para outro podem mudar drasticamente pelo simples fato de uma população de origem distinta predominarem em uma região e não em outra. No Brasil a diversidade cultural parece ser mais ampla por fatores históricos. O súbito aparecimento de um indivíduo de cultura muito distinta do Terapeuta pode provocar um equívoco na interpretação dos discursos no decorrer da análise. A cautela no decorrer do Tratamento de Ensaio deve ser intensa porque neste momento o Psicanalista, ao perceber muitas divergências culturais contundentes, precisa abdicar do paciente. O ideal, conforme Psicanalistas experientes, seria a relação paciente-analista acontecer em pé de igualdade cultural.

            Apesar do objetivo da Psicanálise ser o de buscar as origens das neuroses nas profundezas do Inconsciente, as relações sociais, tanto como fontes históricas dos tormentos passados, quanto fontes atuais das manifestações presentes, deveriam ser consideradas epistemologicamente. Portanto, ao terapeuta cabe a difícil e complexa tarefa de perceber o quanto um indivíduo foi ou é influenciado pela cultura em que se encontra inserido. Afinal, neurótico ou psicótico, seja qual for o tormento (ou considerado socialmente normal), todos são influenciados ou condicionados de alguma forma pela cultura que os cercam.

 

“A única ponte que ainda une o homem moderno ao homem “arcaico” é o psiquismo humano; só as exterioridades mudam; o substrato fantasmático – o Inconsciente – é intemporal”

Baubo, la vulve mythique, p12

 

SEXUALIDADE

 

SEXUALIDADE

                O material estudado sobre o tema em questão elucidou plenamente os estágios do desenvolvimento da sexualidade durante a evolução humana, e as suas respectivas reações físicas e psicológicas e/ou vice-versa, sejam elas decorrentes de etapas vivenciadas no timing correto ou interrompidas. Também foi possível reconhecer que fatores hereditários, sociais e culturais influenciam (mas não determinam) o comportamento ou preferências que irão “reluzir” no decorrer da vida sexual do indivíduo.

            A constituição do comportamento humano ou das suas neuroses, segundo Freud, inevitavelmente transcorrem (também) pelas vias do desenvolvimento da sexualidade. Logo, para que seja possível uma compreensão mais próxima do ideal do termo ou composição da sexualidade faz-se necessário trafegar por saberes multidisciplinares. A ideia dessa abordagem não é apenas expressar o conhecimento adquirido, outrossim, suscitar a interrogação e curiosidade sobre os fatores motivacionais de uma sexualidade, principalmente considerada “fora do normal”. Também não é intuito adentrar em adversidades orgânicas, mas realizar uma tentativa de observar contrapontos para reflexão e pesquisa.

            As várias faces da sexualidade (e da vida sexual)

            Após uma leitura atenta do material didático sobre o assunto ficou claro que o ser humano sofre influência de vários fatores no transcorrer da sua trajetória de vida. Alguns de ordem orgânica (anatômica ou disfuncional, por exemplo) e outros de ordem química (medicamentos antidepressivos ou ansiolíticos – ou outros). Também de ordem emocional ou uma combinação desta com a biológica e química ou ambas.

            O Pai da Psicanálise, Freud, conseguiu descobertas importantes na sua delongada jornada de estudos do aparelho psíquico ainda que as suas teorias tenham sido consideradas como Pansexualismo, da forma que o Psiquiatra e Psicoterapeuta Jung expressou. Conversar sobre sexualidade sem abarcar a questão das relações sexuais e suas multifaces seria quase impossível no contexto da Psicanálise. As preferências ou impulsos inconscientes que envolvem a prática sexual sempre foram recobertas de tabus, regras, mitos e preconceitos. Os textos de Cavalcanti expressam nitidamente os cenários e as crenças que envolveram as questões da cópula, gravidez, menstruação, fertilidade, virilidade e cultos fálicos. Foram muitos passos até o momento em que “a humanidade deu um grande salto ao separar os prazeres do sexo de seu propósito biológico meramente reprodutivo”, segundo Berne citado por Cavalcanti.

            As diferenças cristalinas e compreensíveis a respeito das concepções do erotismo entre homens e mulheres são expressivas para o entendimento das reações do aparelho psíquico, como disfunções sexuais ou transtornos do desejo sexual. Os incitadores e supressores sexuais figuram, igualmente, dentre as questões meritórias que o psicanalista precisa investigar no momento da Psicoterapia. Na página 38 do material didático surge uma menção importante que todo Psicoterapeuta deve manter latente em sua mente: a exclusão “[...] do diagnóstico de parafilia as práticas que se restringem ao relacionamento sexual, de um ou mais indivíduos, enquanto isto não atrapalhe as outras áreas de sua vida, nem causem sofrimento (para si ou para outrem).”

            Outrora várias práticas sexuais classificadas por Freud como “perversão”, na atualidade encaradas com naturalidade desde que isentas de sofrimento físico ou emocional, próprio ou de outrem, cada “preferência” (exibicionismo, fetichismo, masturbação, voyeurismo e demais), necessitam de um olhar perspicaz na busca por respostas. Não existe neste parágrafo uma tentativa de isentar ou justificar uma ou outra prática, mas sim, a intenção de acenar para a inevitabilidade do sentido de atenção, bom senso e critério técnico (conjugados) no momento de diagnosticar e prognosticar, de definir o caminho a seguir.

            Uma reflexão (filosófica) sobre:

            Influência ou espontaneidade?

            Um termo que se originou a partir do Latim, concupiscens, cujo significado é: “o que tem um forte desejo”; derivativo da palavra concupera: “ter forte desejo”, remete ao fato de que o ser humano nasce com uma característica nata, a de querer sempre mais e desejar aquilo que não possui. Um importante filósofo da Grécia Antiga, Platão, esboçara dois idealismos platônicos. Um definido como conhecimento sensível, dito como ínfero e ilusório, obtido somente pelos caminhos do corpo, pela experimentação que conduziria para um caminho não salutar. O outro, o conhecimento inteligível, tido como sublime e elevado, que poderia ser encontrado no universo das ideias e formas, acessado somente pelo exercício intelectual, pelo raciocínio.

            Diante desses dois idealismos paira uma questão: como ter a convicção do acerto perante as ideias ou a certeza do erro sem trilhar pelos caminhos da experimentação? Esse breve momento de inspiração filosófica (se é que pode ser considerado filosófico) emerge com o objetivo de salientar o quanto o ser humano necessita da experiência para comprovar suas suspeitas (como o amor requer a experiência para conhecer a profundidade, intensidade e sustentabilidade da relação). Cabe lembrar que algumas experiências levadas à prática podem acarretar em transtornos recalcados.

            A educação impingida pelos pais, as relações sociais, a cultura vivenciada surge no mundo das ideias, ou seja, acontece inicialmente muito mais no discurso do que propriamente na prática, no universo das ideias e formas - o conhecimento inteligível em ação. O passo seguinte, impulsionado ou não pelos pais, amigos ou habitantes do mundo, é que trará as respostas concretas de sucesso ou insucesso, do correto ou incorreto, do aceito ou não aceito - o conhecimento sensível em ação.

            O indivíduo, enquanto criança plenamente dependente dos seus responsáveis diretos (o que comer, beber, vestir, brincar, etc.), encontra-se a mercê da escolha de qual conhecimento eles decidiram naquele momento ou para suas vidas, sensível ou inteligível (ou ambos, conforme circunstância ou conveniência). Contudo, em seguida a criança inteiramente submissa, passa a se transformar na criança que toma decisões - sejam manifestas ou enrustidas.

            Impossibilitada de agir ou reagir (coagida) de acordo com as suas preferências ou juízos, inicia a construção de artimanhas para realizar (todos ou em parte) os seus desejos, que imperam sobre as necessidades. Essa façanha evolutiva é conduzida através dos tempos e nas fases subsequentes o talento para praticar e realizar desejos e fantasias toma uma forma silenciosa, anônima, secreta...as vezes, no fundo, “auto preconceituosa”.

            Há mais de quatro décadas a OMS esboçara que a sexualidade faz parte da personalidade de cada pessoa e, inevitavelmente, impossível de ser excluída dos demais âmbitos da vida. A sexualidade se constitui com o passar dos anos a partir de tudo que o ser humano se permite sentir e não pelo que os outros permitem sentir. Assim como outros aspectos humanos mudam com a vida (por intermédio da teoria e experiência), a sexualidade de igual forma se transforma, se reinventa.

            Enfim, sem levar em conta qualquer supressor ou incitador biológico (órgão genital impotente, disfuncional, etc.), químico (produto medicamentoso depressivo ou ansiolítico, etc.) ou cultural da sexualidade ou da atividade sexual (seja esta qual for), o importante é buscar entender a origem motivacional para tal e perceber o grau de interferência negativa sobre o sujeito. Indiscutivelmente torna-se complexa a tarefa de identificar a gênese de um provável desarranjo psicossexual.

           

“O remorso crónico, e com isto todos os moralistas estão de acordo, é um sentimento bastante indesejável. Se considerais ter agido mal, arrependei-vos, corrigi os vossos erros na medida do possível e tentai conduzir-vos melhor na próxima vez. E não vos entregueis, sob nenhum pretexto, à meditação melancólica das vossas faltas. Rebolar no lodo não é, com certeza, a melhor maneira de alguém se lavar”

Huxley, Aldous. Admirável mundo novo


 

PSICOPATOLOGIAS

  

PSICOPATOLOGIAS

            O intuito deste texto é proporcionar – da mesma forma que os anteriores – inquietudes e reflexões a partir das exposições sobre neuroses, psicoses, perversões, depressões, melancolias e demais psicopatologias do material didático. Também visa não tornar entediante a leitura desta redação, replicando os conteúdos descritos com tanta objetividade e nitidez, justamente para um leitor que possui todo o conhecimento possível sobre os diversos distúrbios neuróticos.

            A mente ardilosa

            “De médico e louco todo mundo tem um pouco” (dizia um antigo ditado). De neurótico, psicótico e perverso, também (novo ditado criado pelo autor deste texto). O mais perturbante diante dos vários quadros de distúrbios do aparelho psíquico é a forma como eles se encontram silenciosamente “escondidos” e como se originam nas profundezas do inconsciente. Todavia, despertados por algum “gatilho” ou algo germinado, estimulado e trazido à tona num piscar de olhos após um período de dormência. E se as motivações não forem descobertas? Ou, se não estiverem lá, no inconsciente? Algumas vezes reações somáticas são perceptíveis, em muitos casos nem tanto. A mente, sempre ardilosa, revela uma capacidade ímpar de conduzir o ser humano pelos caminhos menos pesarosos, contudo, desenvolve desajustes de ordem física, mental ou de personalidade.

            Um paciente com psiconeurose - distúrbio reconhecido como o reflexo das investidas infrutíferas de enfrentar os conflitos ou traumas do inconsciente -, por exemplo, com a sua mente recheada de dúvidas, tentará ocultar tudo que for possível do seu analista (e quem garante que não consegue?). O psicótico, por sua vez, não, uma vez que é cheio de certezas e nada teme por revelar aquilo que acredita “dentro do seu castelo”. Diante disso surge uma dúvida: é possível existir um neurótico com características psicóticas e vice-versa? Ou, será possível existir uma pessoa normal com características psicóticas ou neuróticas (ou deprimido, melancólico, pervertido, ...)? Através de uma ótica leiga, talvez sim.

            A complexidade dos indícios

            O psicótico com inquietação psicomotora versus o neurótico fóbico e ansioso; o psicótico com alucinações histéricas versus o neurótico com nervosismo acentuado pela neurastenia; ambos carregam em si características genéricas de perturbações distintas. Torna-se deveras dificílimo diagnosticar um indivíduo com um ou outro distúrbio, uma vez que a neurose não altera o potencial do raciocínio enquanto a psicose não altera a cognição, memória e consciência.

            Em 1973, David Rosenham, professor da Universidade de Stanford, elaborou e executou um experimento, conhecido até hoje como O Experimento de Rosenham. A experiência tinha como objetivo testar se os profissionais da saúde mental detinham a capacidade assertiva de diagnosticar distúrbios do Aparelho Psíquico. O catedrático convocou oito pseudopacientes que conseguiram internação em hospitais psiquiátricos. Em síntese, sete pacientes foram diagnosticados com esquizofrenia na internação e esquizofrenia em remissão na baixa hospitalar. Na segunda fase do experimento Rosenham alertou um hospital de que alguém faria a tal experiência (que na verdade não aconteceria). Resultado: de 193 pacientes avaliados 83 foram considerados pseudopacientes. Resultado: o professor acenou concretamente que a partir de “rótulos psiquiátricos específicos, tudo o que um paciente faz passa a ser interpretado conforme esse rótulo”. (KLEINMAN, 2015, p. 213-216)

            Um analista precisa ser dotado de extrema capacidade perceptiva (além do conhecimento respectivo, é claro) para perceber diante de qual quadro se encontra.

            Os desvios da “normalidade”

            Um pervertido sexual é considerado depravado na medida em que age de forma indecente em lugar indevido. Ora, uma cidadã brasileira que “desfila” com os seios à mostra na beira da praia imediatamente será denunciada e consequentemente presa, autuada e processada por danos morais. Contudo, se a mesma cidadã desfilar seminua em pleno Sambódromo no período do Carnaval nada acontecerá – o exibicionismo deixa ser exibicionismo neste caso? Afinal, exibir partes íntimas do corpo está longe de ser devido ao calor. Um homem que expor seus órgãos genitais na beira da praia, igualmente, será denunciado, preso, autuado e processado por danos morais. No entanto, nos campos de naturismo o mesmo indivíduo pode permanecer completamente nu perante crianças, inclusive. Da mesma forma, o exibicionismo deixa ser exibicionismo neste caso? Há quem diga que se trata de um estilo de vida – na sua totalidade, será? Quem garante? Um cidadão que instala um equipamento para captar imagens íntimas das dependências de um imóvel, sem o consentimento (ou conhecimento) dos respectivos ocupantes, não configura infração da Lei (nesta exemplificação, se tratando apenas de pessoas adultas). Porém, se as imagens forem divulgadas ao público, seja pela internet ou outro meio, desta feita sim, trata-se de uma ação passível de denúncia, prisão, autuação e processo penal. Neste caso, o voyeurismo somente se configura ante a exposição não abalizada?  A sociedade brasileira é nitidamente paradoxal. Agora, como reagirá a mente de uma criança, um pré-adolescente ou adolescente diante de tantas contradições das convenções sociais e culturais. Será que o ato em si é perverso na raiz da atitude ou o local (ou a forma da ação) que determina o desvio de conduta? Mas qual lugar específico anula por completo uma atitude pervertida? Essas são apenas algumas antíteses de dar “nó” em mentes que ainda estão em formação (que dirá em mentes com distúrbios neuróticos ou psicóticos pronunciados).

            Pulsões insatisfeitas da modernidade

            O ser humano detém uma capacidade ímpar de buscar satisfazer os seus desejos, por ele ilibados. Seria sensato compreender que se tratam de desejos platônicos, uma vez que eles nunca findam, jamais morrem, sobrevivem aos tempos, enfim, perduram porque são platônicos. O ser humano procura, busca, insiste naquilo que a sua mente imagina como o ideal, melhor, que consagra. Ele tornará a perseguir o inatingível porque o achado estará distante de ser como o pensado, idealizado, desejado. Nesta trajetória repleta de patologias psicossomáticas, sejam elas de cunho neurótico, psicótico, depressivo..., a vida acaba por ser quase que integralmente despida de valor pelo deslumbramento do desejo inalcançável.

            Essas indagações, a princípio primárias, são provenientes da observação de uma sociedade doente, talvez insana. Não no sentido de pessoas doentes, mas de hábitos que promovem a ansiedade, uma interminável e dolorosa angústia. Valorizar o outro em detrimento do EU parece ter se tornado uma constante. A constante angústia de depender da opinião alheia (opressão), a constante angústia de não receber um feedback da mensagem enviada a pouco pelo WhatsApp (ansiedade), a constante angústia de não ter recebido um like (talvez insuficiente) da recente postagem no Facebook (depressão), ..., enfim, tais inquietudes parecem estar assumindo a roupagem de “pulsões não satisfeitas”. Existem incontáveis pacientes prostrados em divãs mundo afora, mas como seria bom acomodar os hábitos, costumes e as culturas no lugar deles (ou antes deles).

 

PSICOPATOLOGIAS II

 

PSICOPATOLOGIAS II

            O material pesquisado sobre Psicopatologias revelou uma gama considerável de distúrbios do aparelho psíquico possíveis de serem considerados interlaçados - talvez um distúrbio conduza a outro ou um dependa de outro.  Com o intuito de redigir um texto que sintetize um pensamento crítico a partir do exposto, ao invés de meramente replicar os esclarecimentos, foram destacados dois termos do material para o desenvolvimento de uma redação focada: transtorno e reação.

            Os parágrafos a seguir não visam defender algum ponto de vista ou conferir mérito maior ou menor a um ou outro pesquisador, seja ele profissional da área da saúde ou não. Nem tão pouco descreditar o mérito de estudos empíricos ou teóricos do passado e da atualidade. Por outro lado, ambiciona provocar o debate e a crítica. A ideia essencial seria exercitar um olhar enfático sobre as potencialidades da mente humana, capaz de imaginar e criar Psiconeuroses a partir de fatores causais que precipitem ou predispõem uma doença. A quem credite as reações humanas, única e exclusivamente, a processos que envolvem o corpo físico. William James, Psicólogo e Filósofo norte-americano, pai da Escola Filosófica conhecida como Pragmatismo, e um dos pioneiros da Psicologia Funcional, por exemplo, foi um deles. Esta visão reducionista dá “pouca ou nenhuma importância ao processo de avaliação mental da situação que provoca a emoção”. (DAMÁSIO, 2012, p; 128)

 

            Contextualização de um ícone da medicina mental

            A fim de enriquecer a exposição que segue, um ilustre nome será introduzido na argumentação, Alfred Adler (1870-1937). Diplomado em medicina em 1895 pela Universidade de Viena, após especialização em Oftalmologia tornou-se um Psiquiatra. Membro fundador (em seguida presidente) da Sociedade Psicanalítica de Viena, iniciou uma fase de críticas e discordâncias frente as ideias de Freud (e de outros membros da instituição por ele presidida) no decorrer de sua trajetória, coeficientes que suscitaram a sua renúncia ao cargo ocupado.

            Apesar de um histórico de infância problemática, as adversidades serviriam de incentivo para a busca da titularidade de médico e posterior criação da Teoria da Personalidade. O aspecto importante da hipótese foi de encontro ao ponto culminante de Freud que preconizava os instintos inatos do ser humano como o princípio da motivação comportamental. Adler foi incisivo ao mencionar que todo indivíduo é influenciado e estimulado por impulsões sociais. Se por um lado Freud sublinhou o sexo, Adler focalizou os aspectos determinantes do interesse social no comportamento humano.

            O embate entre o Ego, de Freud, e o Self Criativo, de Adler, culminaram na redução do instinto sexual como determinante exclusivo da formatação do comportamento, ou seja, o ser humano seria um ser social antes de um ser sexual. Portanto, uma vez que o indivíduo é influenciado por impulsos sociais, ele se transforma numa criatura propensa a absorver todo e qualquer estímulo que o conduza para algum tipo de transtorno, basta estar com a mente fragilizada o suficiente para permitir tal feito.

 

            Cérebro – uma máquina de associações

            Era uma vez um garoto de apenas 10 anos de idade que anualmente desfrutava das férias de verão junto dos pais em uma bela praia gaúcha. Em certo janeiro os pais tiveram uma ideia “brilhante” de entretenimento: assistir O Tubarão, um inesquecível filme. O resultado foi traumático para a criança cuja mente encontrava-se fulminantemente imaginativa. A tenra faixa etária associada ao oceano contendo um tubarão à espreita foram os ingredientes necessários para que a criança não encontrasse “um pingo” de coragem para entrar nas águas do mar pelo resto da temporada. Motivo: a iminência de ser estraçalhado e devorado por um tubarão enorme com dentes gigantescos e afiados, surgido silenciosamente das profundezas do Oceano Atlântico.

            Transtorno de Ansiedade – Fobia – Personalidade

            O mesmo (ou, provavelmente mais intenso) fluxo de adrenalina produzido durante o filme era reprisado no momento do deslocamento até a beira da praia – quanto mais perto da água, mais acentuada as Reações da Fobia. Surge então, neste contexto, a Fobia por Associação. Dentre as várias Psicopatologias citadas no material didático, a Fobia foi escolhida para dar prosseguimento ao raciocínio. Por mais numerosas que fossem as tentativas de fazer a criança entender que a história assistida era ficção e que jamais tal fato aconteceria, a Fobia permaneceu e prevaleceu.

            As funções do Córtex Frontal - responsável pelo julgamento, controle de impulsos, e pensamento crítico (dentre as demais funções) - foram inteiramente subjugadas pelas funções da Amigdala - ativada em situações com marcante significado emocional. Esse episódio traumático real poderia ser facilmente substituído por um outro qualquer associado ao Transtorno de Humor, Hipocondria, Disfunção Sexual ou Ansiedade Generalizada... basta pensar nas histórias de vida por algum momento. Questões: – Como seria a mente da criança se os pais a obrigassem a entrar na água? Ou, se o medo virasse motivo de piada? Seria sensato afirmar que o pavor de uma temporada poderia perdurar por uma vida por intermédio de um Transtorno causador do Medo, ou Pânico, ou Fobia... e suas respectivas Reações.

            As defesas da mente

            contra o enfrentamento dos problemas

            É interessante ressaltar que tanto Adler quanto Freud concordavam que os mecanismos psíquicos geram artifícios defensivos para as Neuroses. Um indivíduo com Distúrbio Neurótico detém a incapacidade de administrar os problemas do cotidiano a partir do desenvolvimento de “salvaguardas” (um conceito importante de Adler, congênere aos mecanismos Freudianos de defesa). Três salvaguardas foram categorizadas (na época): Desculpas; Agressão; Distanciamento. A primeira constitui, ardilosamente, desculpas para os fracassos da vida (a culpa jamais recai sobre o próprio indivíduo); A segunda, Agressão, busca culpados por tais fracassos; a terceira, o Distanciamento, infligi postergações, justifica os fracassos pela debilidade de impedir os problemas originários dos fracassos da vida (vitimização).

           

            CONSIDERAÇÕES FINAIS

            Um comportamento considerado anormal - biológico ou sociológico (baseado em patologias conhecidas do cérebro: orgânicas ou biogênicas), psicogênico (quando não é patologia cerebral conhecida:), ou sociogênico (fatores sociológicos) pode ser identificado, remediado, evitado ou controlado. Resta refletir sobre os tipos e quantidade de reações emocionais que já se encontram inatas no ser humano desde o seu nascimento e quais são instigadas por indução ou pela ausência de orientação. É perfeitamente aceitável que algumas reações emocionais pré-programadas internamente, como o medo, possam ser acionadas frente a estímulos externos.   Por exemplo: não tenho medo de entrar no mar, desde que inexista tubarões. Neste exemplo o medo encontra-se (de certa forma) predisposto, todavia, necessita de um estímulo precipitante. As Reações do corpo humano físico e mental independem da identificação do objeto estimulante, ou seja, uma pessoa não demanda perceber um tubarão por perto, basta enxergar uma barbatana (seja ela de um golfinho) para permanecer longe do mar.         Portanto, se o corpo é dotado de Córtices Sensoriais para detectar, classificar e enviar os sinais para as Amigdalas, como evitar ou driblar as Neuroses que “rodeiam” o dia-a-dia de cada indivíduo. Os Transtornos Cognitivos, as Perturbações Neuróticas, enfim, as Reações Psicossomáticas podem ser desencadeadas (ou não) por um simples ato de assistir um filme errado, no local e tempo inapropriado. Haja Freud, Jung, Adler e toda a sociedade psicanalítica para tantos vieses de possíveis perturbações do Aparelho Psíquico.

 

“Só não existe o que não pode ser imaginado”

Murilo Mendes

 

SONHOS E SIMBOLOGIA

 

SONHOS E SIMBOLOGIA

            O texto a seguir tem por objetivo expressar o conhecimento adquirido sobre os conceitos estabelecidos por Sigmund Freud a respeito da análise e interpretação dos Sonhos. Demais opiniões oriundas da Neurociência ou contrapontos como do pesquisador James Allan Hobson (que acredita serem os sonhos um subproduto da atividade cerebral noturna) não serão confrontadas neste interim. Servirão, sim, como fontes para argumentação e crítica. Por outro lado, o termo ‘símbolo’ exigirá uma brevíssima contextualização para melhor entendimento do teor redigido.

            Seria um erro gravíssimo por parte de um Psicanalista imaginar que a força oculta do inconsciente é inócua. O inconsciente é silencioso, escondido e surpreendentemente sorrateiro, afinal revela desejos e comoções “adormecidas” por intermédio de sinais sintomáticos ou, segundo Freud, sonhos. Os sonhos, por sua vez, são compostos de simbologias com potencial de confundir até mesmo um profissional experiente da saúde mental. O Pai da Psicanálise foi sabiamente categórico ao afirmar que a linguagem dos sonhos é constituída essencialmente de símbolos, e que a sua manifestação é uma representação sensória do inconsciente, evocadas por estímulos externos (ou não). Um símbolo detém um forte vínculo com o seu objeto recalcado ou objetos de determinado contexto. Logo, seria sensato reconhecer que ao analisar um ou mais sonhos o Analista percorra uma via que conduz ao inconsciente e seus conteúdos selados. Ao “mexer” no inconsciente por associação livre ou interpretação dos sonhos, o terapeuta traz à tona estados de pura excitação. Sentimentos que podem revelar os estímulos das psiconeuroses manifestas, dissimuladas ou incubadas.

 

            A linguagem e a simbologia no contexto

            “Aquele médico é um açougueiro”. Esta afirmação não é verdadeiramente literal (a princípio, afinal, nada impede tal possibilidade), pois se trata tão somente de uma metáfora que intenta desabonar um profissional (pelo menos para quem proferiu a simbologia). O que permite alguém interpretar e consequentemente compreender o uso não literal da linguagem é a contextualização com saberes provenientes das esferas culturais e sociais, linguísticas e cognitivas. Os conteúdos oníricos - mais do que qualquer outro – demandam conhecimentos específicos, profundos e muita vivência para interpretação.

            Os significados culturais são deveras importantes na simbologia de contexto. Alguns exemplos: - o ato de cruzar os dedos é usual em países ocidentais, cujo significado é atrair sorte. Todavia, no Vietnã simboliza a genitália feminina. - Na Alemanha, ao escutar com as mãos nos bolsos, o ouvinte transmite ao interlocutor total desinteresse pelo conteúdo. - Na América Latina e determinados países ocidentais, acenar com o punho fechado e o polegar para cima, significa “ok”, ou seja, denota a concordância com algo dito ou realizado, ou ainda, que está tudo bem. No Oriente Médio é considerado um insulto indecoroso. Na Grécia, Rússia e alguns países da África é considerado um insulto. Estes foram mínimos gestos simbólicos que podem causar alvoroço e controvérsias conforme a cultura e costumes sociais.

            SONHOS

            Uma porta para a simbologia do desconhecido

            O Psicanalista, ao ouvir o Conteúdo Manifesto do paciente, precisa estar atento as nuances do relato e não pode ignorar ou negligenciar qualquer detalhe. A integridade e composição da análise do sonho dependerá essencialmente das particularidades percebidas no decorrer da sessão. No instante de escutar, a capacidade de perceber os fragmentos do todo fará a diferença na etapa da análise. As Associações Livres que o Analista porventura executar devem ocorrer sobre as frações “recortadas” do todo, afinal, o sonho detém a irracionalidade e incoerência. Os mecanismos conhecidos de formação do conteúdo do Sonho Latente disfarçam o sonho manifesto. Se por um lado inexistem pensamentos abstratos no sonho, por outro, as imagens são concretas mesmo sendo ilógicas e impossibilitadas de tradução (paradoxal isso!). O mesmo ocorre na Condensação, Desdobramento, Deslocamento, Representação do Oposto, ..., dissimulam as pulsões ora recalcadas no ID.

            A simbologia por si só é passível de análise e interpretação. Mas é importante pensar como um conjunto de símbolos se forma na mente do ser humano. Será que os Modelos Mentais sui generis, o capital cultural e intelectual pessoal ou um possível déficit cognitivo pode influenciar (ou distorcer ainda mais) o desenvolvimento da simbologia contida nos sonhos? Como se revela o sonho de um paciente com concepções errôneas ou distorcidas sobre aquilo que é considerado convencional, normal, anormal, excêntrico, imoral, ...? Como seria o sonho de um indivíduo que ingere antipsicótico? Teria o Aparelho Psíquico a capacidade de ajustar recalques constituídos a partir de experiências incomuns ou surpreendentes para uma simbologia compreensível? Esses são alguns questionamentos leigos instigados por leituras anteriores, contudo, plausíveis.

 

             Análise e interpretação

            O desafio que não pode conter erro

            Criticar símbolos exige um conhecimento muito aprimorado sobre a capacidade do cérebro de perceber imagens com sentido denotativo ou conotativo - quase sempre inconscientemente. A saber, o sentido denotativo percebe um símbolo (imagem) pela revelação da expressão literal que ele representa, ao invés da insinuação por ele provocada. Por outro lado, a conotação remete ao sentido mais amplo que se pode atribuir para uma simbologia, que vai muito além da sua própria significação própria ou intenção. Em síntese trata-se do sentido atribuído ao símbolo por consequência das associações motivadas pelo significado popular que oscila de acordo com as experiências e sensibilidade do Analista – sem esquecer a influência do contexto. Ainda, no âmbito da estilística, o sentido conotativo é empregado com sentido metafórico ou figurado em total contrariedade ao sentido comum, próprio e denotativo.

            No decorrer do dia-a-dia o ser humano exercita inconscientemente análises denotativas e conotativas pelo simples fato de serem decorrentes do automatismo inerente as funções psicosensoriais. Portanto, cabe ao Psicanalista decidir em que momento ele deverá utilizar o sentido denotativo, o qual requer grande capacidade analítica, centrada rigorosamente no objeto (símbolo), e que exige um total resfriamento da concepção emocional, a fim de evitar que o racional seja sobrepujado pelo sentimental. Ou, em que momento usar o sentido conotativo, totalmente liberto das amarras do racional e da lógica.

            Enfim, ponderando tais considerações, seria sensato cogitar que uma efetiva análise e interpretação de sonhos teria mais chance de sucesso na medida que a sua simbologia fosse relativizada por duas aptidões: a aptidão intelectual-interpretativa e aptidão emocional-sensitiva. A primeira, quanto mais apurada, maior a possibilidade de sucesso de uma análise denotativa dos sonhos (razão pura); a segunda, quanto mais apurada, maior a possibilidade de sucesso de uma análise conotativa dos sonhos (emoção pura). Em síntese, o equilíbrio e dosagem no decorrer do processo, caso a caso, seria o ideal. Colocar descrédito na técnica da interpretação dos sonhos não seria o mais importante neste interim. Antes disso, mais significativo, cabe ao Psicoterapeuta a reflexão e decisão racional e responsável a respeito de adotar ou não a técnica da interpretação dos sonhos no seu escopo de atuação – ao menos nos primeiros anos do exercício da profissão – porque a mente do paciente não suportaria equívoco no diagnóstico e muito menos no prognóstico do seu problema. De todas as convicções de Sigmund Freud, James Allan Hobson (Neurocientista), Mark Solms (Pesquisador na área da Neuropsicanálise), e tantos outros, a maior certeza de todas é que ainda não se conhece tudo – ou pouco - sobre os sonhos.

 

“A dúvida é o princípio da sabedoria”

Aristóteles

 


A PERCEPÇÃO DOS AFETOS E O PROCESSO FORMATIVO DO PSICOTERAPEUTA

 

A PERCEPÇÃO DOS AFETOS

E O PROCESSO FORMATIVO DO

PSICOTERAPEUTA

            Seguindo o mesmo critério dos textos anteriores, a seguinte redação comportará um recorte considerado expressivo no contexto geral da Clínica Psicanalítica, uma vez que se torna impossível redigir comentários – mesmo superficiais - sobre tantos tópicos importantes e cruciais em reduzido espaço.

            A abordagem que chamou muito a atenção foram três dentre quatro formas de perceber os afetos da relação terapêutica por intermédio da perspectiva do terapeuta: “Eu sou o outro”, “Eu para o outro” e “O outro para mim”. O exercício do “sentir junto”, “ocupar lugares complementares” e “diferenciar-se destes lugares” – respectivamente -, exigirá do Psicanalista, simultaneamente, muita empatia e elevada racionalidade. É intrigante lembrar que através de uma ótica leiga, um Psicanalista detém a capacidade (ou obrigatoriedade) de portar-se de maneira insensível e “gélida” perante o seu paciente no transcorrer da sessão. Essa, com certeza, é uma visão completamente errônea da maioria das pessoas.

            Em contraste a esse ponto de vista equivocado, o compartilhar e sentir promove o desenvolvimento formativo do analista (e do paciente). É um processo que exige prudência, todavia, uma trajetória importante e indispensável para a evolução e capacitação mais aprimorada do profissional que trata da saúde mental. O cuidado extremo no momento do sentir ancora na razão de não se deixar envolver emocionalmente pelos problemas do paciente. Não se envolver jamais deve ser confundido com não ficar atento, não se interessar ou não se comprometer com a resolução do problema (e até mesmo não sentir). A possibilidade de tal deslize colocaria todo o processo psicoterapêutico no caminho do fracasso e culminaria, inevitavelmente, no prejuízo da reputação do analista e da psicanálise.

            Das reações somáticas do psicoterapeuta

            à interpretação

            O Psicanalista precisa conter as suas reações emocionais (verbais e não verbais) diante das associações livres do paciente. A capacidade ou intensidade de comedimento do analista se manifesta de acordo com a sua realidade formativa, do seu repertório de formas somáticas, dos seus modos de lidar com as situações e vínculos. A princípio um psicoterapeuta não conseguirá mascarar ou acobertar plenamente as reações advindas dos Vínculos entre paciente e analista. Mas, o relevante é saber sentir e expressar a emoção correta com a intensidade apropriada. Talvez o saber sentir seja a manifestação mais complicada neste interim. Seria possível dosar a intensidade (com técnica e treinamento) e escolher no repertório somático pessoal a melhor expressão diante de uma circunstância.

            Porém, sentir requer experimentação. Por exemplo: o paciente relata a perda do seu cãozinho de estimação, parceiro fiel, amado, percebido como um filho. Contudo, o terapeuta nunca desfrutou da companhia de um cão, ou pior, tem aversão a espécie porque sofre de Rinite Alérgica, por consequência, alérgico aos pelos do animal. Pergunta: como o analista conseguirá expressar a emoção correta na intensidade apropriada se ele carece da sensação, emoção, vivência, afinidade, enfim, desconhece tal sentimento? A dificuldade, nesta exemplificação, está em buscar um vínculo no sentimento expresso pelo paciente, não no objeto que ocasionou o sentimento de perda. Logo, é sábio reconhecer que o Processo Analítico está longe de ser centrado no sujeito do analisando, tampouco do analista, mas sim nos vínculos estabelecidos entre eles, nos vínculos corretos.

            Ao perceber os vínculos corretos o Psicoterapeuta facilita a Interpretação das narrativas. A constante interação entre paciente e Psicanalista converte o terapeuta em participante ativo do processo psicoterapêutico e remove do paciente o rótulo de narrador passivo, afinal, concomitantemente, eles influenciam um ao outro através das emoções emanadas. Mas, no final das contas, o sentimento constitui a emoção ou a partir do sentimento a emoção surge? Algumas vertentes da ciência sugerem que a emoção é uma disposição de sentimento que abrange alterações fisiológicas e psíquicas, interferindo de imediato na maneira como o indivíduo pensa e, consequentemente, se comporta.

            É importante que o Psicanalista tenha conhecimento sobre algumas teorias da emoção, categorizadas em três princípios: * Princípio Neurológico: postula que as respostas emocionais são provenientes, unicamente, das atividades cerebrais; * Princípio Fisiológico: presumem que as reações do corpo impulsionam os reflexos emocionais; * Princípio Cognitivo: entende que os pensamentos e as atividades mentais são as motivadoras das reações emocionais. Diante desses princípios é prudente considerar que todas as pessoas sentem emoções, porém, em intensidade, situações e momentos diferentes. Logo, algumas emoções podem ser admitidas como pertencentes ao senso comum, ou seja, todos sentem uma determinada emoção nas suas devidas proporções pessoais. Outras, nem tanto!

            No ano 1872, Charles Darwin em sua obra - A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais relata uma experiência: “Encostei meu rosto no vidro grosso, na frente de uma cobra venenosa, [...] determinado a não saltar para trás se ela me atacasse, mas assim que ela deu o bote, minha decisão perdeu o efeito, e recuei de um a dois metros [...]. Minha vontade e razão foram inúteis face à sensação de um perigo que nunca tinha experimentado”.

            Nesta vivência, qual é o princípio ou gatilho que impulsionou a reação? Neurológico, fisiológico ou cognitivo? A experiência relatada demonstra, incontestavelmente, que a razão se torna impossibilitada de controlar as reações diante de uma circunstância introjetada naturalmente nas emoções humanas vinculadas ao medo. É sabido que cobras podem ser venenosas (a maioria das pessoas não distingui uma víbora peçonhenta das outras). Portanto, ao serem avistadas, a reação emocional rege distanciamento ou fuga. Mesmo que um indivíduo nunca tenha sido atacado, mordido ou se aproximado de uma serpente, a reação de receio e pânico se farão naturalmente presentes. Assim, torna-se evidente que as influencias emocionais podem ser natas ou decorrentes de uma experiência. E, nada mais sensato, que presumir que as emoções preparam para o inevitável e protegem o ser humano. As emoções são as representações básicas dos meios inteligentes não conscientes, desencadeados por processos primários cujas expressões de palavras ausentes invocam respostas igualmente sem palavras, ou seja, a interpretação.

 

            CONSIDERAÇÕES FINAIS

            O ambiente onde acontece a sessão merece atenção especial. Ele precisa ser configurado sem preferências e desejos pessoais – foco: o paciente. As cores, o mobiliário, a disposição dos objetos, enfim, tudo requer planejamento meticuloso. Contudo, um detalhe que merece reflexão diz respeito ao posicionamento do divã. Esta redação elencou a percepção dos afetos e dedicou contemplação sobre o sentimento e a emoção. Excluindo as etapas da anamnese e entrevista, um paciente em terapia permaneceria postado no divã à frente da posição do terapeuta (a prática sugere). Nesta perspectiva o Psicanalista fica impossibilitado de perceber as reações fisionômicas do paciente. A comunicação não verbal seria indispensável para uma contextualização mais ampla e precisa da narrativa durante as associações livres. Portanto, a decisão de onde ou como dispor o paciente e analista não podem ser negligenciadas. A certeza é de que as formas somáticas, o processo formativo, o envolvimento do paciente com as regras da livre associação, tudo gravita em torno de emoções e sentimentos.


 

RESISTÊNCIA: HERÓI OU VILÃO

 

RESISTÊNCIA: HERÓI OU VILÃO?

            O conteúdo deste texto não tem como objetivo uma delongada discussão sobre o processo de Resistência que surge no decorrer das sessões psicoterapêuticas. Também não visa resgatar o conceito na sua origem - brilhantemente desenvolvido por Freud - e confronta-lo com as novas concepções a respeito, emergidas desde aquele tempo. O recorte cíclico abarca juízos e abstrações da atualidade e a intenção seria provocar a crítica e possivelmente uma consideração final sobre a questão refletida no título desta redação: afinal, a Resistência é salutar ou desfavorável?

            A Resistência como vilão – obstáculo para a análise

            É inegável e/ou compreensível que determinados acontecimentos históricos na vida de qualquer ser humano possa semear algum gênero de neurose na psique inconsciente. O papel fundamental do Psicanalista, segundo o Pai da Psicanálise, é trazer à margem do consciente as pulsões que atormentam o paciente, pois somente assim, as angústias e flagelos poderão ser “encarados de frente”, enfrentados e, por uma ótica otimista, controlados (para não afirmar, extinguidos). Contudo, neste afrontamento de emoções, surge um processo considerado impossível de prever ou evitar, a Resistência. Ela pode surgir de imediato (na entrevista ou anamnese) ou gradativamente (no decorrer das sessões). É possível afirmar que ela surgirá de várias formas e tipos (ou não, afinal, cada caso é um caso – porém, improvável). O imenso desafio, se não o maior deles, é reconhecer e “remover” cada Resistência, ou seja, desconstruir as barreiras que intentam impedir a psicoterapia. A Resistência tenta rechaçar o acesso aos conteúdos engessados no inconsciente, procura dificultar a conversão de tudo que é inconsciente para o nível consciente.

            Diante de uma ótica holística, seria aceitável identificar uma analogia entre diluir resistências e conteúdos reprimidos, uma vez que uma se origina da outra (não seria a resistência uma criação da anticatexia?). A mente do paciente acaba por situar-se entre o desejo de expressar e “resistir”. A psique humana, deveras artimanhosa, é capaz de desenvolver Resistências até mesmo a partir dos erros de expressão ou interpretação do Psicoterapeuta. Portanto, um alerta, junto à vontade latente de falar do paciente, a voracidade da Resistência permanecerá à espreita de um deslize do analista. Serão meras tentativas de impelir obstáculos as associações livres.

            A Resistência como herói

            O caminho indispensável para a análise

            Os primeiros debates sobre Resistência surgiram quando Freud tentava exteriorizar as memórias reprimidas das pacientes consideradas histéricas. É importante ressaltar que tal discussão acontecera antes do surgimento das Associações Livres, período no qual a prática da hipnose era empregada com relativo sucesso. A psicoterapia, neste caso, consistia de um método quase coercitivo. A concepção era de que a Resistência (termo que surgiu por volta de 1893 no case Elisabeth Von. R) atuava como barreia, oposição no percurso da terapia. (ZIMERMAN, 2004, p.95).

            No entanto, o entendimento de que as Resistências não passavam de obstáculos obteve uma nova conotação. O significado e o grau de importância delas, analisou Freud, acenavam o quanto elas eram necessárias para os pacientes e Psicanalistas. Ao Analista tais obstruções funcionam como agentes formadores de sinais e maneiras de como funciona o aparelho psíquico do paciente. Compreender as resistências do indivíduo postado no divã significa compreender como a sua mente consciente e inconsciente operam naquele período da vida. O ato de pressentir o estado mental inconsciente do paciente por intermédio das Resistências, contribui sensivelmente com o desenvolvimento de um processo ritmado da psicoterapia, ou seja, cadencia ao invés de apressar a busca pelas origens das psiconeuroses e as possíveis soluções. Talvez uma aproximação precipitada, desgovernada, rápida demais, promova o surgimento de outras Resistências e quem sabe até novas psiconeuroses.

            Um Psicanalista ao tentar de imediato desconstruir uma repressão poderia abalar mais ainda o Ego, ou um deslocamento poderia acrescer o número de “vítimas” por ofensas, ou uma dissociação de consciência poderia fazer prevalecer a parte reprimida, ou uma escotomização poderia “cegar de vez” o paciente, ou um isolamento poderia afugentar definitivamente um paciente, ou ... (apenas suposições). Ao que tudo indica (teorias, conceitos, práticas) as Resistências tornam-se mais intensas ou volumosas na medida em que o Analista se aproxima das representações recalcadas do paciente. Portanto, se o psicoterapeuta “ameaça” reconhecer e revelar as ameaças inconscientes, e como resposta da psique as Resistências se manifestam ou aumentam, isto poderia ser considerado um sinal de que se está no caminho certo, o caminho para o enfrentamento e tentativa de solução. Também existe algo importante a ser considerado na análise das Resistências: atua no processo formativo do Analista enriquecendo a “bagagem” de experiências acumuladas.

           

CONSIDERAÇÕES SOBRE AS BENESSES

DA RESISTÊNCIA

            Diante de teorias, conceitos e principalmente da prática psicanalítica (certamente um universo frente ao que foi sucintamente exposto neste texto), fica evidente que a Resistência detém um papel importante na psicoterapia. Basta refletir sobre um case hipotético: um indivíduo é surpreendido por um ataque de humor (Defesa) durante os atos fúnebres de alguém querido. Contudo, não sofreu Postergação de Afetos quando se encontrava solitariamente em casa. Questão: por que a segunda Defesa não foi acionada pela psique? Ou, por que não aconteceu somente a segunda Defesa da psique após os préstimos lutuosos? Não basta descobrir que determinadas reações são as Defesas constituídas pela Resistência, é necessário desvendar por que uma Defesa foi manifestada e não outra – e a fonte motivadora.

            Os simbolismos que o paciente expõe pelas Associações Livres ou através dos sonhos, carregariam um duplo significado ou significados distintos, porém, voltados para a mesma origem? Uma pessoa que pronuncia o famoso dizer “olho, mas não enxergo”, estaria revelando que algo é insuportável de enxergar pelo ato em si ou porque remete para algo que foi insuportável no passado? O ato de “não enxergar” não elimina ou resolve o problema, muito menos atenua a perturbação emocional recorrente. Caberia, então, ao Analista investigar e compreender: 1- Por que o “objeto” precisa ser forçosamente ignorando; 2- Qual o motivo da psique do paciente ter “optado” pela Escotomização. Portanto, uma origem, dois questionamentos.

            Enfim, um Psicoterapeuta sempre terá diante de si novos desafios. O seu repertório de conhecimentos lhe confere gabarito para enfrenta-los, entretanto, jamais lhe garantirá certezas e sucessos. A princípio, todo ser humano parece conduzir dentro do seu pensar a tendência de observar, adequar e produzir as suas crenças de modo intensamente pessoal. Logo, um paciente seguro e arraigado nas suas convicções irá manifestar um conjunto de Resistências do seu repertório inconsciente, sejam elas acertadas ou não. Outra tendência humana parece ser a ausência de senso crítico, aquele olhar analítico que conduz a busca pelo conhecimento fundamentado e bom senso.

            A título de sustentação: dez pessoas foram questionadas sobre o significado dos Três Macaquinhos Sábios (imagem trazida por um monge budista chinês no século 8, segundo folclore japonês), Mizaru (o que cobre os olhos), Kikazaru (que tapa os ouvidos) e Iwazaru (tampa a boca). Resposta unânime: - significa que não devo enxergar, ouvir e falar quando algo não me convém (uma Escotomização aperfeiçoada). A tradução e interpretação correta seria “não ouça o mal”, “não fale o mal” e “não veja o mal”. Dois significados para o mesmo objeto. Portanto, conduzir o paciente rumo ao significado correto é o desafio do Psicanalista (metaforicamente falando).


 

TRANSFERÊNCIA: UM RESGATE DO PASSADO

 

TRANSFERÊNCIA

um RESGATE do PASSADO

            As ponderações a seguir não intentam obter o título de verdade absoluta ou até mesmo parcial. Elas visam instigar a mente da comunidade psicanalítica através de provocações e concepções diferenciadas. Com o objetivo de não repetir considerações sobre os conteúdos abordados na redação anterior - que expressaram ideias e reflexões sobre Resistência -, esta, irá discorrer somente sobre Transferência. Através de uma perspectiva otimista, este processo que acontece no decorrer das sessões da psicoterapia, será compreendido como favorável, indispensável, tanto para o Analista quanto paciente. Para o Psicoterapeuta a Transferência servirá como aporte para a observação e interpretação das Resistências e, consequentemente, dos seus respectivos malfadados prenunciadores inconscientes. Para o paciente a Transferência servirá como indicador (desde que o Psicanalista consiga faze-lo perceber como tal) de que ele está inconscientemente resistindo a terapia, tentando impedir o acesso aos conteúdos recalcados que lhe importunam. Enfim, Transferência, um processo que promove no aparelho psíquico do ser humano o reviver das representações que foram aprisionadas nos confins do inconsciente por intermédio do Terapeuta.

A interpretação do inconsciente através da Transferência

            Seria coerente e possível afirmar que a Transferência não consubstancia somente simbologia das representações inconscientes do paciente, traduzem também, a forma e disposição da estrutura do aparelho psíquico – como ele se situa no momento e de que forma reage frente ao mundo presente e passado. Desta manifestação emerge a possibilidade de esclarecer o ‘porquê’, ‘o quê’ e ‘como’ o paciente está se autopreservando. Como afirmou Goethe: “[...] a parte não permite reconhecer o todo, nem o conjunto deve ser reconhecido nas partes [...]”. Antes da Psicoterapia pretender curar o paciente de suas próprias emoções, propõe descobrir, conhecer, revelar a lógica do inconsciente por intermédio dos “porquês” e “comos”. No fundo, o paciente precisa compreender que as emoções inconvenientes não irão evaporar, elas serão moderadas por intermédio da inteligência emocional, ou seja, através do equilíbrio da razão e emoção. Contudo, aprender a sustentar tal verticalidade exige renúncia de hábitos e declínio de pragmatismos autoconstituídos e perpetuados. Enquanto o equilíbrio não for suficiente, Transferências Positivas, Negativas ou ambas, surgirão.

            Transferência Positiva - Negativa

            A definição conceitual de Transferência Positiva e Negativa distintamente formatada é clara: se positiva, resultam em sentimentos de gostar, admirar, confiar e seus respectivos derivados; se negativa, desgostar, menosprezar, suspeitar, .... Existe uma certa correlação entre tais reações e o sentimento de ‘ser aceito’, ‘ser reconhecido’. Alguém gosta, admira ou confia em outrem diante do reconhecimento e aceitação da sua originalidade, do seu perfil. De idêntica forma desgosta, menospreza ou suspeita se perceber renúncia e desaprovação. Por conseguinte, os sentimentos transferenciais positivos ou negativos parecem se originar conforme a aceitação ou rejeição, reconhecimento ou renúncia, expressões advindas de qualquer indivíduo que manifestar alguma destas comoções, seja ele terapeuta ou não.

            Em vista disso, o insucesso de uma investida num relacionamento (desprezo = insucesso = transferência), o fracasso no exercício de uma determinada atividade profissional (renúncia = fracasso = transferência), a frustração de uma tentativa malsucedida de inserção num grupo social (desaprovação = frustração = transferência), ..., não seriam consequências da rejeição e renúncia? Por conseguinte, diante de sentimentos históricos desta natureza, o Aparelho Psíquico fica vulnerável ao ponto de criar uma Transferência oportunista. Positiva se perceber no Analista uma atmosfera de aceitação e reconhecimento (compreensão) por rejeições e renúncias do passado. Negativa na medida em que o paciente reconheça no Analista uma similitude com um indivíduo ou pessoas que marcaram duramente a psique enfraquecida no passado.

            Parece sensato compreender que a Transferência, seja ela Positiva ou Negativa, detém a sua gênese na história do paciente, todavia, o seu gatilho encontra-se no presente. A conceituação leva a crer que um trauma do passado pode gerar a Transferência Positiva se o paciente sentir aceitação por parte do Analista; Negativa, ao perceber rejeição. Portanto, o mesmo objeto pode produzir esta ou aquela manifestação, dependerá (quase que exclusivamente) da reação ou Contratransferência do Psicanalista. A Transferência se desenvolve a partir de “alguma particularidade real habilmente aproveitada da pessoa ou das circunstâncias” do Analista. Não seria tampouco desvairado pensar que o Psicoterapeuta possa “seduzir” ou induzir o paciente a incorporar a Transferência Positiva. Obviamente, na medida que o psicodoente imagina qualquer reação ou semelhança no Psicanalista com o seu passado tortuoso, seja qual for a tentativa de persuasão, ela enfrentará maior resistência. Também, algum sentimento de intenso regozijo do passado pode motivar o paciente a deseja-lo, novamente, no presente. Momentos de felicidade vivenciados com o cônjuge falecido, por exemplo. O ente finado não retornará à vida, no entanto, existe a possibilidade de tentar recriar momentos aprazíveis similares.  É relevante intuir que a motivação para o trauma e a felicidade é subjetiva e estreitamente pessoal, ou seja, aquilo que perturba ou alegra uma pessoa pode sequer chamar a atenção de outra.

            A imaginação que vivifica a Transferência

            Freud exemplifica em ‘Um caso de histeria, três ensaios sobre sexualidade e outros trabalhos’ (1901-1905), Volume VII, p. 28, com a situação de uma mulher que contrai matrimônio com um sujeito pouco atencioso, o qual promove nela sofrimento e sentimentos de desvalorização. Ela, ao submeter-se a este tratamento indesejado, acionara no Aparelho Psíquico a construção de uma ponte de comunicação com as vivências desagradáveis do passado. Gradualmente e inconscientemente, momentos em que os pais dividiam o amor, igualitariamente entre os demais filhos, emergem das memórias recalcadas, revivendo assim, episódios angustiantes e de menosprezo – segundo a sua mente. Por conseguinte, a maneira de captar a atenção do cônjuge (um aceno do Aparelho Psíquico) era clamar por atenção através da doença.

            Diante desta narrativa fica evidente os três parâmetros de Etchegoyen, realidade e fantasia, consciente e inconsciente, presente e passado, utilizados por Sigmund Freud para definir a Transferência como função aliada nas sessões de Psicoterapia. É possível utilizar a ilustração da seguinte forma para reflexão. O presente e passado se configuram entre: - presente, transferência direcionada ao Analista; - passado longínquo, no dividir o amor pelos pais; - passado aproximado, menosprezo do marido. O passado se subdividiu, mas se fundiu em um único sentir. Para ilustrar e enriquecer a reflexão será considerada uma possível manifestação de Transferência Positiva. Ou seja, o Psicanalista teria expressado aceitação e reconhecimento pelo perfil da paciente (não apenas pelo sofrimento) enquanto ser humano capaz de realizações saudáveis e independentes.

            A mente da personagem ora revive sentimentos do passado longínquo inconsciente (com os pais e irmãos), ora do passado aproximado consciente (com o cônjuge), ora do presente consciente (com o Analista) – o passado se subdividiu novamente com a intervenção dos processos primários e secundários. Assim, aflora um transitar pela mente consciente e inconsciente. Onde entra a realidade e fantasia? O real e o imaginário, intensamente presentes no estado de vigilância, acabam por confundir a mente consciente, não somente por comportar representações simbólicas, mas, talvez por uma especificidade do Ic: por ser a região de intensa caracterização do comportamento infantil. As crianças, sabidamente, têm dificuldades em discernir e compreender as distinções entre aquilo que é real e fantasioso. Logo, a mente infante (mesmo inconsciente), igualmente, não teria condições de avaliar ou estremar uma atitude de compartilhamento de amor de outra que visa favorecimento ou preferência.

            No final das contas qualquer ser humano, seja ele um paciente acometido ou não de alguma psiconeurose, percebe as coisas como um espectro dos seus desejos pessoais. Logo, seria coerente entender que boa parte de tudo que o ser humano enxerga detém uma carga de deturpação da realidade, ou seja, ele vê aquilo que deseja (uma projeção de si) e não exatamente o que é literalmente. Portanto, para que a Transferência aconteça faz-se necessária a identificação com o Psicanalista, mais precisamente com a aceitação ou rejeição das representações simbólicas que o paciente articula. Levando-se em conta que a Transferência é inevitável e incontornável e que as sessões a revelam ao invés de cria-la, resta ao Psicoterapeuta não resistir, por outro lado, utilizá-la como vantagem psicanalítica em benefício da terapia e favorável ao paciente.

            O enfrentamento das Neuroses na raiz

            “O ser humano aprendeu a atuar no teatro social com brilho, mas não no teatro psíquico, onde é preciso filtrar estímulos estressantes, gerir seus pensamentos, proteger sua emoção. No dia-a-dia, a mente pensa tolices, a emoção dá créditos a elas e o eu ingênuo [...] paga a conta por não saber filtrar os pensamentos”. É humanamente impossível voltar no tempo ou tampouco recuá-lo, em contrapartida, é possível sim, compreender o passado a fim de amenizar o status quo do presente e evitar um futuro angustiante. A lucidez não evita a estupidez súbita e muito menos a tranquilidade isenta do desespero inesperado, porém, momentos de ansiedade e indelicadeza quando encarados com uma boa dose de autoestima não germinam danos tão intensos e duradouros.

            Este termo: autoestima. Qual seria o peso deste elemento sensório na psique do paciente? Como moldar uma boa autoestima? Quem seria o responsável pela formação de uma autoestima robusta? Antes mesmo de o ser humano ser inteiramente responsável por sua autoestima, os seus cuidadores (na infância, pré-adolescência e adolescência) serão inteiramente responsáveis por direcionar ou indicar o caminho do autoconhecimento. Nada adianta falar sobre autoestima sem a base fundamental do autoconhecimento, capaz de desenvolver o self material, self social e self psicológico do sujeito. Cada um deles, constituídos a partir de aquisições materiais (bens), interações sociais (aceitação e/ou rejeição) e faculdades psíquicas (arquitetada, construída e apropriada).

            Investigar, descobrir e reconhecer potenciais positivos e negativos pessoais é a base do autoconhecimento. Apoderar-se das potencialidades próprias e aprimora-las, substitui-las, ignora-las, ..., é o princípio da construção da boa autoestima. É sensato conjecturar que as Neuroses podem frutificar adiante da autoestima debilitada, mal formatada durante a formação da personalidade. Cury (2008) alertara sobre as quatro armadilhas da mente que emergem em grau e intensidade variadas face as fragilidades da psique: o conformismo; o coitadismo; o medo de reconhecer os erros; e, o medo de correr riscos.

            O caso anteriormente descrito da esposa angustiada pela ausência de valorização do marido ergue a seguinte interrogação: por que ela se conforma com o descaso e assume uma postura de coitada, obscurecendo a possiblidade de reconhecer uma parcela de erro na situação, talvez, impedindo a busca por solução pelo medo de correr algum risco? Uma possibilidade seria a sua autoestima estar enfermiça, diluída em pensamentos repletos de culpas imaginárias e desejos insatisfeitos. Dentre tantas dúvidas e questionamentos uma certeza resplandece: algo inconsciente está ensombrando a realidade dela; algo inconsciente está criando caminhos e artifícios para evitar o confronto de consciências; algo inconsciente está represando a vontade e iniciativa de seguir em frente. Muitas perguntas, porém, nenhuma resposta instantaneamente manifesta.

 

            CONSIDERAÇÕES FINAIS

            Psicotratar um paciente e modificar as sensações oriundas de representações do passado está longe de ser comparado com o escritor que apaga o recente parágrafo redigido para em seguida reescreve-lo. O cenário teatral do Aparelho Psíquico e as suas respectivas manifestações simbólicas é forjado por sentimentos fóbicos, traumas, compulsões, depressões, angustias, ..., por uma variedade conhecida e ainda desconhecida de psiconeuroses. Notoriamente, deletar traumas e cicatrizes da psique a fim de repaginar o inconsciente para regenerar o consciente presente é utopia. Entretanto, a correta condução das técnicas psicoterápicas pode abrandar a psique com uma nova forma de ser, responder, perceber e apreciar a vida presente.

            Em síntese, um Psicanalista deveria percorrer e transitar por áreas do inconsciente perturbado, identificar as psiconeuroses, observar em qual período da vida e de que forma elas acometeram o paciente. Por fim, tentar reeditar os episódios angustiantes do inconsciente e edificar episódios paralelos saudáveis em torno dos perceptivelmente traumáticos. Quem dera, o passo seguinte ou final, fosse ensinar o paciente a se tornar dono dos seus pensamentos, sentimentos e reações emocionais. Quem dera, conseguir criar na mente do paciente um Eu soberano, majestoso, predominante, soberbo diante dos pensamentos tempestuosos que margeiam a consciência. Tudo isto... a partir das Transferências!

 

“Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa”

Freud

 

ÉTICA NA PSICANÁLISE

  

ÉTICA NA PSICANÁLISE

            Escrever sobre Ética na Psicanálise exige, antes de qualquer coisa, uma transitada pelos significados dos termos ‘ética’ e ‘moral’. Este texto não irá analisar e “pôr em xeque” o Código de Ética Profissional do Psicanalista ou redizer o dito em outras palavras. O termo ‘ética’, tão ouvido e pronunciado dentre diversos grupos sociais, na maioria das vezes é percebido de maneira errônea, talvez por ser difícil de explicar, talvez por ser difícil de compreender. Na tradução essencialmente literal (sem considerar qualquer vertente de estudo) a ética alberga em si o constante estudo e a consequente ruminação dos costumes e comportamentos do ser humano em sociedade. Todavia, a saber, o olhar sobre a ética pode ser concebido por intermédio de um prisma estritamente científico, ou seja, percebido como ciência normativa ou ciência descritiva. Enfim, difícil de explicar, difícil de compreender.

            Moral: comportamentos em ação

            Qual o significado do termo moral? Conceitualmente, moral é a conjunção de normas, princípios e valores que regulam o comportamento dos indivíduos no convívio social. A moral é percebida em dois planos: o normativo sugere o comportamento ideal; o fatual refere-se à ação propriamente dita. Isto não significa que tudo que for moralmente apontado será efetivamente praticado ou realizado da forma proposta. Apesar dos planos poderem ser distintamente percebidos, não podem ser desassociados. Enquanto o plano normativo aponta para o ideal (moral), o fatual revela as relações humanas concretas. A partir delas surge o termo moralidade que é a moral em ação, a moral prática e praticada. Somente atos individuais com consequências sociais (para outros sujeitos) podem ser qualificados moralmente – aqui entra a questão da relação paciente x analista.

            A moral se manifesta sempre em sociedade, nunca isoladamente. É por isso que a moral possui função social, ou seja, sustenta e assegura a ordem na sociedade. A moral não deve ser confundida com as leis instituídas pelas vias do direito. O direito possui o caráter coercitivo cujo cumprimento das regras independe da aceitação voluntária ou não do indivíduo. Ao contrário do cunho impositivo do direito, a moral sugere uma relação consciente entre indivíduos através da adoção de práticas por livre e espontânea vontade. Isto ocorre primordialmente através da ampliação da consciência particular de cada sujeito. Paralelamente a este fenômeno, a moral alcança avanços proporcionais.

            É justamente na consciência individual que as decisões de caráter moral são assimiladas, ponderadas e então, praticadas. As atitudes ou atos morais estão sempre sujeitos a julgamentos. Portanto, poderão ou não ser aprovadas. Por sua vez, o ato moral é basicamente sustentado pelo motivo que o estimula. O motivo precisa ser consciente caso contrário não é parte integrante do ato moral. O motivo caracteriza-se pela reação não instintiva. Por isso todo ato moral demanda motivo, propósito, meios de alcançá-lo, resultados e consequências. Consequências sociais traduzidas em mudanças que consequentemente provocam mudanças de conduta moral.

            Ética: a interminável disputa entre o bem e o mal

            Concomitantemente ao estudo dos costumes e comportamentos do homem na sociedade, surgirão, invariavelmente e certamente, questões relacionadas a liberdade e ao tolhimento de expressão. Todo cidadão sonha e busca (ou é incentivado buscar) a liberdade de expressão verbal e não-verbal no microcosmo que considera o seu habitat. Porém, em contrapartida ele é tolhido de tal liberdade, coagido a observar e seguir normas impingidas e aceitas pela maioria das pessoas. Surge então, a moral, a permissividade social de assuntos pertinentes aos bons costumes e subsequentes comportamentos, elasticamente estudados pela Ética. Em síntese, aquilo que for reconhecido como moralmente aceito pertence ao grupo de ações do bem - proporcionam benefícios ao convívio social; moralmente rejeitado, do mal - provocam malefícios, danos morais. Os estudos da Ética abarcarão, indubitavelmente, eventos vinculados a liberdade de expressão, consciência coletiva, juízos de valor coletivo, Leis, ..., transformando a conceituação em aplicação efetiva.

            A Ética no ramo da Psicanálise

            Afinal, qual o significado do termo Ética? O que fundamenta e possibilita a existência da Ética é a moral. Enquanto a moral é constituída pela prática dos costumes do homem, a Ética tem a finalidade de investigar, esclarecer e elaborar conceitos correlatos. Desta forma, ela tenta encontrar um denominador comum sobre as inúmeras práticas morais e formalizar uma característica genérica, uma vez que é impossível atender a cada situação em particular. A Ética, enquanto teoria, procura abarcar o que existe de melhor ou mais apropriado para o convívio social. A moral possui preceitos variáveis em decorrência de oscilações históricas, ou seja, não é permanente e imutável. A ciência da ética estuda justamente as manifestações efetivadas no passado ou no presente e em nenhum momento ela tenta manifestar qualquer juízo de valor a respeito da prática moral.

            Por isso que a moral não é considerada científica mesmo que possam existir determinadas concepções dela que sejam científicas. A fim de explicar determinados comportamentos morais a ética busca relacionar-se com outras ciências como filosofia, psicologia e antropologia. Estas são algumas das ciências que revelam ou justificam algumas atitudes humanas na sociedade e, apesar da Ética ser a teoria do comportamento moral, ela pode influir na prática-moral. A prática-moral está essencialmente correlacionada com a responsabilidade do sujeito da ação. Isto significa que a decisão de efetivar ou não determinada ação é um problema prático-moral, porém o estudo dessa atitude é da competência da Ética. Portanto, o objeto de estudo da Ética é a moral manifesta no comportamento do homem.

            É possível interpretar que a Ética da Profissão deriva da Deontologia. A Deontologia possui a sua etimologia na Grécia – deon ou deontos/logos -, cujo significado seria “o estudo dos deveres”. Ela detém duas perspectivas: a perspectiva teórica; e, perspectiva prática. A comunhão destas dimensões tem por objetivo regulamentar a conduta do ser humano na sociedade. No caso do Psicanalista, o intuito é específico, bem objetivo e muito claro: considerar todos aspectos axiológicos da sociedade para assegurar e preservar o paciente de qualquer forma de exposição. É relevante lembrar que descumprir parte ou todo o regramento instituído resulta em sanções para o transgressor. A Ética Profissional é regida pela razão, ou seja, é uma racionalização que conduz para uma conduta saudável e sustentável, tanto para o paciente quanto para o Analista – ambos evitam a exposição e o desgaste. O Código de Conduta Ética do Psicanalista nada mais é do que um conjunto de regras a serem observadas e que jamais, em hipótese e justificativa alguma, podem ser descumpridas.

 

            CONSIDERAÇÕES FINAIS

            Qualquer grupo profissional, necessariamente, se autorregula. Logo, são desenvolvidos conjuntos de regras a partir de estudos éticos e consequentes atos morais instituídos, levando-se sempre em conta os costumes da sociedade. Este regramento garante a plena confiança por parte das pessoas e salvaguarda a reputação da atividade psicanalítica. A conduta ética não preconiza tudo o que o Psicanalista pode fazer, mas sim, aquilo que ele deve fazer, obrigatoriamente fazer. Todavia, este “dever fazer” não pode ser uma obrigação profissional. Este sentimento precisa ser espontâneo, sincero, consciente e verdadeiro. Afinal, como afirmava Kant, os princípios da Ética são Imperativos Categóricos, ou seja, eles mandam, não aconselham. Portanto, o dever está acima do desejo.

           



terça-feira, 1 de setembro de 2026

A PASSIVIDADE QUE TRANSFORMA A INSANIDADE EM VERDADES ABSOLUTAS

 

   

A HISTÓRIA DOS DISCURSOS MAL INTENCIONADOS

por Heitor Jorge Lau

    A filosofia da banalidade do mal, formulada por Hannah Arendt, é uma das reflexões mais perturbadoras sobre a natureza da violência e da responsabilidade humana. Ao acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, Arendt esperava encontrar um monstro ideológico, mas deparou-se com um homem medíocre, incapaz de pensar criticamente, que justificava suas ações com frases burocráticas como “cumpri ordens”. Esse choque levou-a a concluir que o mal não precisa ser radical ou demoníaco para existir; ele pode ser banal, fruto da ausência de pensamento, da renúncia à reflexão moral e da obediência automática a sistemas que legitimam a destruição. O que torna esse conceito tão inquietante é que ele desloca o foco da monstruosidade individual para a fragilidade coletiva: qualquer pessoa, em determinadas circunstâncias, pode se tornar cúmplice de atrocidades sem perceber a dimensão de seus atos.

     Essa ideia ganha força quando aplicada aos regimes de Hitler, Stalin, Mao, Pol Pot e outros. Milhões de pessoas participaram direta ou indiretamente de genocídios e perseguições não por sadismo, mas por conformismo, medo ou busca de pertencimento. O funcionário que carimbava documentos de deportação, o soldado que obedecia a ordens sem questionar, o vizinho que se calava diante da perseguição — todos se tornaram peças de engrenagens que produziam morte em escala industrial. Psicologicamente, isso revela a vulnerabilidade humana diante da autoridade e da propaganda: quando o pensamento crítico é sufocado, a obediência se torna virtude e a indiferença se transforma em autopreservação. Filosoficamente, a banalidade do mal nos obriga a repensar a responsabilidade moral: não basta não matar; é preciso pensar, julgar e resistir, mesmo quando o custo é alto.

    O conceito também ilumina o papel das sociedades que sustentaram esses regimes. Não se trata apenas de líderes sanguinários, mas de populações inteiras que, em graus variados, apoiaram, participaram ou se omitiram. A banalidade do mal mostra que o silêncio diante da injustiça é uma forma de cumplicidade, e que a neutralidade pode ser tão destrutiva quanto a ação direta. Em regimes totalitários, o medo e a propaganda corroem a capacidade de resistência, mas Arendt insiste que pensar é sempre possível, mesmo sob opressão. Essa insistência filosófica é um chamado à responsabilidade: cada indivíduo tem o dever de refletir sobre suas ações e suas consequências, porque é na ausência desse pensamento que o mal se banaliza e se perpetua.

    Hoje, a banalidade do mal continua atual. Ela não se limita ao nazismo ou ao comunismo, mas pode se manifestar em qualquer sistema burocrático que legitime injustiças, em discursos políticos que normalizam a violência ou em sociedades digitais que multiplicam a indiferença. O perigo não está apenas nos líderes carismáticos, mas na passividade das massas que aceitam narrativas sem questionar. Arendt nos alerta que o mal pode surgir sempre que o pensamento crítico é abandonado, e que a única defesa contra ele é a coragem de pensar e julgar, mesmo quando isso nos coloca contra a corrente. A filosofia da banalidade do mal, portanto, não é apenas uma análise histórica, mas uma advertência permanente: o maior risco não é o ódio explícito, mas a indiferença silenciosa que permite que ele floresça.

    A psicologia das massas em ditaduras revela como sociedades inteiras podem ser moldadas para aceitar, apoiar ou se calar diante de atrocidades. O fenômeno não se explica apenas pelo medo, mas pela manipulação sistemática da percepção coletiva. Líderes como Hitler, Stalin, Mao ou Pol Pot compreenderam que o poder não se sustenta apenas pela violência física, mas pela construção de uma narrativa que transforma o indivíduo em parte de um corpo social homogêneo. A propaganda, repetida incessantemente, cria uma realidade paralela em que o líder é visto como salvador e qualquer oposição é percebida como ameaça existencial. Nesse ambiente, a capacidade crítica se dissolve, e o cidadão comum passa a agir não como indivíduo, mas como membro de uma massa que se identifica com símbolos, slogans e promessas. Psicologicamente, isso gera um estado de fusão emocional, em que a responsabilidade pessoal é diluída e a obediência se torna virtude.

    Esse processo é reforçado pela dinâmica do medo. Em regimes totalitários, a repressão não se limita aos opositores ativos, mas se estende a qualquer um que demonstre dúvida ou neutralidade. O medo da punição, da prisão ou da morte cria uma atmosfera em que o silêncio é a única forma de sobrevivência. Mas paradoxalmente, esse mesmo medo pode levar à participação ativa: muitos se tornam delatores ou agentes da repressão para proteger a si mesmos ou suas famílias. A psicologia das massas, nesse contexto, mostra como o instinto de autopreservação pode ser manipulado para alimentar o sistema de terror. Filosoficamente, isso levanta a questão da responsabilidade coletiva: até que ponto o medo justifica a omissão, e até que ponto a neutralidade se transforma em cumplicidade? Hannah Arendt, ao falar da banalidade do mal, sugere que mesmo sob coerção, o indivíduo mantém a capacidade de pensar e julgar, e é justamente a renúncia a esse pensamento que permite que o mal se perpetue.

    Outro aspecto fundamental é o papel da ideologia. Ditaduras não sobrevivem apenas pela força, mas pela promessa de um futuro melhor. Hitler prometia a grandeza da Alemanha, Stalin a construção do socialismo, Mao a revolução permanente, Pol Pot a pureza agrária. Essas promessas funcionavam como anestésicos morais, justificando o sacrifício de milhões em nome de uma utopia. Psicologicamente, a ideologia oferece sentido e pertencimento, preenchendo o vazio existencial e transformando o sofrimento em missão. A massa, nesse contexto, não apenas obedece por medo, mas participa com fervor, acreditando que sua dor é parte de um processo histórico grandioso. Filosoficamente, isso revela a sedução da utopia: quando o futuro é idealizado, o presente pode ser destruído sem remorso.

    A psicologia das massas em ditaduras mostra como o indivíduo pode ser dissolvido em um coletivo que legitima a violência. A indiferença, o conformismo e a obediência se tornam mecanismos de sobrevivência, mas também de cumplicidade. O lado mais perturbador é que não estamos diante de monstros isolados, mas de sociedades inteiras que, em graus variados, aceitaram ou participaram das atrocidades. Isso nos obriga a refletir sobre nossa própria vulnerabilidade: em que medida qualquer sociedade, diante de crise, medo ou promessa de salvação, pode repetir esses padrões? A filosofia da banalidade do mal e a psicologia das massas convergem para uma advertência: o maior perigo não é apenas o líder tirânico, mas a passividade coletiva que permite que ele floresça. Nesse contexto a propaganda em regimes autoritários é uma das ferramentas mais poderosas de controle social: ela não apenas manipula percepções, mas cria uma realidade paralela em que o líder é visto como salvador e qualquer oposição é percebida como ameaça existencial.

    Nos regimes autoritários do século XX — como o nazismo de Hitler, o fascismo de Mussolini, o salazarismo em Portugal ou o franquismo na Espanha — a propaganda foi utilizada para moldar a opinião pública e legitimar o poder. Ela não se limitava a cartazes e discursos, mas penetrava em todas as esferas da vida: rádio, cinema, jornais, escolas e até na arte. O objetivo era criar uma narrativa única, sem espaço para contestação, em que o Estado se apresentava como guardião da ordem e da moral. A censura complementava esse processo, eliminando qualquer voz dissonante e garantindo que apenas a versão oficial dos fatos circulasse. Como afirmava Salazar em 1932, “nunca se deve perder o controle da formação da opinião pública”, revelando a consciência de que dominar a mente coletiva era tão importante quanto controlar o aparato militar.

    Psicologicamente, a propaganda funcionava como um anestésico moral. Ela transformava o ódio em virtude, a violência em patriotismo e a obediência em dever. Ao repetir slogans e símbolos, criava uma sensação de pertencimento que dissolvia o indivíduo na massa. O cidadão comum, exposto diariamente a mensagens que exaltavam o líder e demonizavam o inimigo, passava a internalizar essas ideias como verdades naturais. Esse processo era reforçado pelo medo: quem ousava questionar arriscava-se a ser denunciado, preso ou morto. Assim, a propaganda não apenas convencia, mas também silenciava, criando uma atmosfera em que pensar diferente se tornava perigoso.

    Filosoficamente, a propaganda em regimes autoritários revela a fragilidade da liberdade humana diante da manipulação sistemática. Ela mostra como a verdade pode ser construída artificialmente, e como sociedades inteiras podem aceitar narrativas falsas quando são privadas de alternativas. A “construção da verdade autoritária”, como descrevem estudiosos, é um processo em que palavras e imagens não apenas informam, mas moldam a própria realidade. Nesse sentido, a propaganda não é apenas um instrumento político, mas uma forma de engenharia social que transforma cidadãos em cúmplices, seja por convicção, seja por indiferença.

    Hoje, a lógica da propaganda autoritária continua atual, ainda que adaptada às redes sociais e ao ambiente digital. Estudos recentes mostram que sua eficácia depende da estrutura das conexões sociais: em sociedades altamente atomizadas ou totalmente conectadas, a propaganda se espalha com mais força, enquanto em redes intermediárias precisa ser menos enviesada para manter engajamento. Isso revela que o perigo não desapareceu... apenas mudou de forma. A lição histórica é clara: quando a informação é monopolizada e a pluralidade é sufocada, a propaganda se torna uma arma capaz de legitimar atrocidades e perpetuar regimes de violência.

            Durante períodos eleitorais, a retórica de políticos mal-intencionados frequentemente ecoa os mecanismos de manipulação usados em regimes autoritários do passado. Assim como Hitler, Stalin ou Mao mobilizavam massas por meio de slogans simplistas e narrativas de salvação nacional, muitos candidatos contemporâneos recorrem a discursos que reduzem problemas complexos a inimigos fáceis de identificar. O “outro” — seja um grupo social, uma minoria ou um adversário político — é transformado em bode expiatório, e a promessa de ordem ou prosperidade é apresentada como justificativa para medidas que corroem direitos e liberdades. Psicologicamente, esse tipo de discurso ativa o medo e a esperança ao mesmo tempo: o medo de perder o que se tem e a esperança de recuperar uma grandeza supostamente perdida. Filosoficamente, trata-se da mesma lógica da banalidade do mal: quando cidadãos aceitam narrativas sem reflexão crítica, tornam-se cúmplices de sistemas que podem legitimar injustiças.

    A propaganda eleitoral, nesse contexto, funciona como uma versão suavizada das técnicas autoritárias. Ela repete slogans até que se tornem verdades aparentes, manipula emoções coletivas e cria uma atmosfera em que pensar diferente é visto como traição. O perigo não está apenas nos líderes que proferem tais discursos, mas na massa que os acolhe sem questionar. Assim como nos regimes totalitários, a responsabilidade não é apenas dos que governam, mas também dos que se deixam seduzir pela retórica fácil. A analogia é clara: quando a sociedade abdica da reflexão crítica e se entrega ao conforto das promessas simplistas, abre espaço para que o mal se banalize novamente, desta vez sob a forma de políticas que corroem lentamente a democracia.

    Esse paralelo nos obriga a olhar para o presente com atenção. A história mostra que a manipulação das massas não começa com campos de concentração ou expurgos, mas com palavras aparentemente inofensivas, repetidas até se tornarem senso comum. O discurso dos políticos mal-intencionados durante eleições é, portanto, um alerta: não basta rejeitar a violência explícita; é preciso resistir à sedução da retórica que transforma medo em arma e esperança em ilusão. A psicologia das massas e a filosofia da banalidade do mal nos lembram que o maior risco não é apenas o líder tirânico, mas a passividade coletiva que permite que ele floresça.


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A PONTE QUE SEPARA OS UNIVERSOS PARALELOS DA MENTE

A PONTE QUE SEPARA OS UNIVERSOS PARALELOS DA MENTE

por Heitor Jorge Lau

            O conceito de universo mental paralelo pode ser entendido como o espaço invisível onde os pensamentos humanos transitam constantemente entre polos opostos: bons e ruins, criativos e destrutivos. A mente não é estática; ela oscila em um fluxo contínuo de ideias, imagens e emoções que se entrelaçam e competem entre si. Esse universo paralelo não é externo, mas interno: é o território psicológico em que convivem simultaneamente a esperança e o medo, a imaginação fértil e a autossabotagem, a busca por sentido e o vazio existencial. Cada pensamento abre uma porta para possibilidades distintas — algumas que constroem, outras que corroem. A noção de paralelismo surge porque esses estados coexistem, muitas vezes sem que percebamos. Enquanto uma parte da mente projeta soluções criativas, outra pode alimentar dúvidas ou impulsos destrutivos. Esse contraste revela a complexidade da condição humana: somos capazes de criar mundos, mas também de implodi-los dentro de nós. Assim, o universo mental paralelo é o reflexo da dualidade essencial do pensamento humano. Reconhecê-lo é compreender que viver significa navegar entre essas forças, escolhendo, a cada instante, qual delas terá mais espaço para se manifestar.

            O universo mental paralelo pode ser compreendido como o espaço interno onde coexistem forças contraditórias, em permanente tensão. Freud foi, talvez, o primeiro a sistematizar essa dualidade ao propor que a mente humana é atravessada por pulsões de vida (Eros) e pulsões de morte (Tânatos). Para ele, o psiquismo não é apenas um campo de racionalidade, mas um terreno de conflitos inconscientes que oscilam entre a criação e a destruição. O inconsciente, longe de ser um depósito passivo de lembranças, é um palco dinâmico onde desejos reprimidos e impulsos latentes se manifestam de forma paralela ao pensamento consciente. Nesse sentido, o universo mental paralelo é a própria estrutura do inconsciente: um espaço que abriga simultaneamente o desejo de construir e o impulso de aniquilar, revelando que o ser humano é sempre atravessado por forças opostas que não se anulam, mas se alimentam mutuamente.

            Jung, por sua vez, amplia essa visão ao introduzir o conceito de inconsciente coletivo. Para ele, o universo mental não se limita ao indivíduo, mas conecta-se a uma dimensão arquetípica compartilhada por toda a humanidade. Nesse universo paralelo, imagens primordiais — como o herói, a sombra, a anima e o velho sábio — emergem e influenciam a vida psíquica. A oscilação entre bons e maus pensamentos, entre criatividade e destruição, encontra eco nos arquétipos que simbolizam tanto a luz quanto a escuridão. A sombra, por exemplo, representa os aspectos reprimidos e destrutivos da personalidade, mas também contém potenciais criativos que, se integrados, podem ampliar a consciência. O universo mental paralelo, na perspectiva junguiana, é um campo de diálogo entre consciente e inconsciente, entre o eu e os arquétipos, onde a integração das polaridades é condição para o processo de individuação.

            A psicanálise, em sua evolução, reconhece que o ser humano não pode ser reduzido a uma linearidade de pensamentos positivos ou negativos. O universo mental paralelo é, antes, um espaço de simultaneidade, em que o sujeito pode experimentar, no mesmo instante, esperança e angústia, desejo e culpa, imaginação e autossabotagem. Essa simultaneidade é o que torna a mente humana tão complexa: não se trata de alternância simples entre polos, mas de coexistência. O sujeito pode criar uma obra de arte enquanto lida com fantasias destrutivas; pode amar intensamente e, ao mesmo tempo, temer perder o objeto amado. A psicanálise mostra que essa dualidade não é patológica em si, mas constitutiva da condição humana. O universo mental paralelo é, portanto, o espaço onde se revela a verdade mais profunda do sujeito: a de que somos seres divididos, atravessados por contradições que nunca se resolvem por completo.

            Freud e Jung convergem em um ponto essencial: o universo mental paralelo não é algo a ser eliminado, mas compreendido. Freud enfatiza a necessidade de trazer à consciência os conteúdos reprimidos, permitindo que o sujeito reconheça suas pulsões e encontre formas de sublimá-las. Jung, por sua vez, defende a integração dos arquétipos e da sombra, como caminho para a totalidade psíquica. Ambos apontam que a saúde mental não está em negar o lado destrutivo da mente, mas em reconhecer sua presença e transformá-la em energia criativa. A psicanálise contemporânea reforça essa ideia ao destacar que o sujeito só se torna livre quando aceita a coexistência de suas forças internas, sem buscar uma pureza ilusória de pensamentos.

            Assim, o universo mental paralelo é mais do que uma metáfora: é a descrição fiel da realidade psíquica. Ele mostra que a mente humana é um campo de batalha e, ao mesmo tempo, um espaço de criação. Oscilar entre bons e maus pensamentos, entre criatividade e destruição, não é sinal de fraqueza, mas de humanidade. O desafio está em aprender a habitar esse universo sem se perder em suas contradições, reconhecendo que a vida psíquica é feita de paralelismos e tensões que nunca cessam. A psicanálise nos ensina que é nesse espaço de conflito que se encontra a possibilidade de transformação: ao integrar o que é reprimido, ao dialogar com a sombra, ao sublimar as pulsões, o sujeito pode transformar o caos em potência e o universo mental paralelo em fonte de sentido.


sábado, 22 de agosto de 2026

TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO

TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO:

A MENTE QUE NÃO ENCONTRA DESCANSO

por Heitor Jorge Lau

            Poucos transtornos psicológicos foram tão banalizados quanto o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, conhecido pela sigla TOC. No senso comum, tornou-se frequente ouvir alguém afirmar que possui TOC porque gosta da casa organizada, porque prefere livros alinhados na estante ou porque sente incômodo diante de objetos fora do lugar. Essa interpretação reduziu uma condição psíquica extremamente complexa a um simples traço de personalidade ou a um hábito cotidiano. Na realidade, o TOC é uma experiência profundamente angustiante, capaz de aprisionar o sujeito em um ciclo incessante de pensamentos, dúvidas e comportamentos repetitivos que escapam ao controle da vontade. Não se trata de uma excentricidade, de um capricho ou de um excesso de zelo, mas de uma forma de sofrimento que compromete a liberdade de pensar, decidir e viver. Sob a perspectiva da psicanálise, compreender esse transtorno exige ir além da aparência dos sintomas e investigar a maneira como o sujeito estabelece uma relação particular com a angústia, culpa, o desejo e, principalmente, com a necessidade de controlar aquilo que, por natureza, permanece impossível de controlar.

            O TOC manifesta-se por meio de dois elementos que costumam caminhar juntos: as obsessões e as compulsões. As obsessões correspondem a pensamentos, imagens, lembranças, impulsos ou dúvidas que surgem de maneira repetitiva e invasiva, impondo-se à consciência mesmo quando a pessoa deseja afastá-los. São conteúdos que aparecem sem convite, retornam inúmeras vezes ao longo do dia e provocam intenso sofrimento emocional. Já as compulsões constituem tentativas de neutralizar a ansiedade produzida por essas obsessões. Elas podem assumir a forma de comportamentos visíveis, como lavar as mãos repetidamente, verificar fechaduras, conferir documentos inúmeras vezes ou organizar objetos segundo regras rígidas. Também podem ocorrer de maneira silenciosa, dentro da própria mente, quando a pessoa repete palavras, faz contagens, cria fórmulas mentais ou revisita incessantemente determinadas lembranças para sentir que tudo está sob controle. O ritual oferece um alívio momentâneo, mas esse alívio dura pouco, e o pensamento retorna ainda mais forte, exigindo uma nova repetição.

            A característica mais marcante do TOC não está propriamente no conteúdo do pensamento obsessivo, mas na impossibilidade de encerrá-lo. A pessoa sabe que fechou a porta, lembra-se de ter desligado o fogão ou reconhece racionalmente que lavou as mãos poucos minutos antes, porém essa lembrança não produz tranquilidade suficiente para interromper a dúvida. Surge então uma pergunta insistente: “E se eu estiver enganado?” Essa pequena frase torna-se uma espécie de combustível para todo o funcionamento obsessivo. O sujeito retorna à porta, verifica novamente, encontra tudo exatamente como havia deixado, afasta-se por alguns instantes e, pouco depois, a dúvida reaparece com a mesma intensidade. A compulsão não busca apenas confirmar um fato, ela tenta produzir uma certeza absoluta, algo que a experiência humana jamais consegue oferecer. A mente obsessiva transforma a dúvida em uma ameaça permanente, como se qualquer margem de incerteza representasse um risco insuportável.

            Sob a ótica psicanalítica, essa busca incessante por certeza revela um conflito mais profundo do que simplesmente um comportamento repetitivo. A neurose obsessiva, estudada desde Freud, mostra um sujeito que procura dominar, através do pensamento, aquilo que escapa ao domínio da consciência. O pensamento deixa de ser uma ferramenta de compreensão da realidade e passa a funcionar como um mecanismo de vigilância permanente. A mente trabalha sem descanso, antecipando acontecimentos, reconstruindo situações passadas, avaliando possibilidades futuras e tentando eliminar qualquer brecha por onde possa surgir o erro, a culpa ou o imprevisto. Quanto mais o sujeito pensa, mais acredita que encontrará a resposta definitiva. Entretanto, cada resposta produz uma nova pergunta, e cada pergunta inaugura outra sequência de verificações. Forma-se um circuito fechado no qual pensar deixa de significar compreender e passa a significar sofrer.

            Um aspecto particularmente doloroso do TOC envolve os chamados pensamentos intrusivos. Muitas pessoas convivem com ideias extremamente violentas, blasfemas, sexuais ou moralmente inaceitáveis, experimentando enorme medo de que esses pensamentos revelem sua verdadeira personalidade. Um indivíduo pode imaginar, por um breve instante, empurrar alguém diante de um veículo, machucar um filho, insultar uma figura religiosa ou realizar um ato completamente contrário aos próprios valores. A presença dessas imagens provoca intenso horror justamente porque entram em conflito com aquilo que a pessoa acredita ser. A interpretação obsessiva transforma a simples ocorrência do pensamento em prova de uma intenção escondida. Surge então uma pergunta devastadora: “Se pensei nisso, significa que desejo fazer isso?” A resposta clínica é clara: pensamentos não são intenções, e intenções não são ações. A mente humana produz conteúdos involuntários continuamente, mas o sujeito obsessivo atribui a esses conteúdos um peso moral muito maior do que realmente possuem.

            Essa dificuldade em separar pensamento e realidade faz com que o indivíduo desenvolva estratégias para impedir que determinadas ideias apareçam. Quanto maior o esforço para expulsar um pensamento da consciência, maior tende a ser sua permanência. Esse paradoxo é conhecido em diferentes áreas da psicologia e aparece com enorme intensidade no TOC. Basta tentar não pensar em determinada imagem para perceber que ela retorna repetidamente. O obsessivo trava uma batalha diária contra a própria atividade mental, acreditando que controlar o pensamento é uma obrigação permanente. A consequência desse combate é um estado de vigilância constante, no qual qualquer conteúdo mental passa a ser monitorado, julgado e neutralizado. A energia psíquica concentra-se menos na vida e mais na tentativa de administrar aquilo que acontece dentro da própria mente.

            Outro elemento central na experiência obsessiva é a culpa. Em muitos casos, a pessoa sente-se responsável por acontecimentos que estão completamente fora de seu controle. Um simples esquecimento pode transformar-se na fantasia de uma tragédia iminente... um pequeno erro cotidiano adquire proporções gigantescas. O sujeito acredita que precisa prever todas as consequências possíveis de suas ações para evitar qualquer dano futuro. Essa responsabilidade excessiva produz uma sobrecarga emocional imensa, pois ninguém possui condições de controlar todas as variáveis da existência. A compulsão aparece justamente como um recurso para aliviar esse sentimento de responsabilidade absoluta. Se conferir mais uma vez, nada acontecerá; se repetir determinado ritual, o perigo será evitado; se organizar tudo perfeitamente, o caos permanecerá distante. O ritual funciona como um contrato imaginário entre o sujeito e a angústia: enquanto ele cumprir determinadas regras, acredita que conseguirá impedir o pior.

            A necessidade de controle também merece uma reflexão importante. Vivemos em uma cultura que valoriza planejamento, produtividade, eficiência e prevenção de riscos. Controlar tornou-se quase uma virtude social. Entretanto, o TOC leva essa lógica ao extremo. O controle deixa de ser um recurso saudável para tornar-se uma exigência impossível de satisfazer. Controlar objetos, controlar horários, controlar emoções, controlar pensamentos, controlar impulsos, controlar o futuro e controlar o comportamento das outras pessoas transforma-se em um projeto permanente. O problema é que a realidade insiste em escapar. Sempre existe uma possibilidade não prevista, um detalhe esquecido, uma incerteza impossível de eliminar. O sujeito obsessivo interpreta essa impossibilidade como fracasso pessoal, intensificando ainda mais seus esforços de controle. Quanto maior a tentativa de dominar a vida, maior a percepção de que ela permanece indomável.

            Na psicanálise o sintoma não é visto apenas como algo a ser eliminado rapidamente, mas como uma formação que possui uma função na economia psíquica do sujeito. Isso não significa romantizar o sofrimento nem negar a importância de tratamentos baseados em evidências científicas. Significa reconhecer que o sintoma faz parte de uma história singular e ocupa determinado lugar na vida daquela pessoa. Dois indivíduos podem lavar as mãos cinquenta vezes por dia e, ainda assim, viver experiências psíquicas completamente diferentes. Para um, a lavagem pode estar relacionada ao medo da contaminação; para outro, pode representar uma tentativa de aliviar uma culpa inconsciente ou de impedir fantasias catastróficas. A psicanálise interessa-se precisamente por essa singularidade, procurando compreender por que aquele ritual se tornou necessário para aquele sujeito específico.

            É igualmente importante distinguir o TOC de características obsessivas da personalidade. Muitas pessoas são organizadas, detalhistas, metódicas ou exigentes consigo mesmas, sem apresentar um transtorno psicológico. O diagnóstico envolve sofrimento significativo, perda de liberdade diante dos pensamentos ou comportamentos e prejuízo concreto na vida cotidiana. Quando alguém deixa de sair de casa porque precisa verificar inúmeras vezes se desligou os aparelhos elétricos, quando perde horas realizando rituais mentais antes de dormir ou quando evita situações comuns por medo de pensamentos intrusivos, existe uma interferência real na qualidade de vida. A banalização do termo “TOC” invisibiliza justamente quem enfrenta esse sofrimento diariamente, transformando uma condição incapacitante em mera mania de organização.

            O tratamento do Transtorno Obsessivo-Compulsivo exige respeito à complexidade do fenômeno. Em muitos casos, a Terapia Cognitivo-Comportamental, especialmente por meio da técnica de Exposição e Prevenção de Resposta, apresenta excelentes resultados científicos. Em situações de maior intensidade, o acompanhamento psiquiátrico e o uso de medicamentos podem reduzir significativamente os sintomas, permitindo que o sujeito recupere parte de sua autonomia. A psicanálise, por sua vez, oferece um espaço para investigar o lugar ocupado pela obsessão na história do indivíduo, suas formas particulares de lidar com a angústia, a culpa, o desejo e a responsabilidade. Essas abordagens não precisam competir entre si, mas podem dialogar de maneira complementar quando o objetivo principal é aliviar o sofrimento humano e ampliar a liberdade psíquica do sujeito.

            Existe uma imagem bastante precisa para compreender o TOC: uma mente que nunca recebe autorização para descansar. Sempre há mais uma dúvida a esclarecer, mais uma possibilidade a examinar, mais um risco a evitar e mais uma verificação a realizar. O silêncio interior torna-se raro porque a consciência permanece ocupada administrando ameaças que quase sempre pertencem ao universo da imaginação obsessiva. A vida passa a ser organizada em função da ansiedade, e não em função dos desejos, dos projetos ou dos afetos. Pouco a pouco, o sujeito deixa de perguntar o que gostaria de viver e passa a perguntar apenas o que precisa fazer para sentir um pouco menos de angústia. Esse deslocamento revela o quanto o transtorno pode reduzir o espaço da espontaneidade e da criatividade na existência.

            A contribuição mais valiosa da psicanálise consiste em recordar que nenhum ser humano possui domínio absoluto sobre a própria mente. Pensamentos surgem, desaparecem, contradizem valores, despertam medo e produzem estranhamento. A saúde psíquica não depende da capacidade de impedir que eles apareçam, mas da possibilidade de estabelecer outra relação com eles. O sujeito obsessivo sofre porque acredita que precisa controlar integralmente aquilo que pensa e garantir absoluta segurança diante da vida. Entretanto, viver implica conviver com a incerteza, com a ambivalência, com a possibilidade de erro e com limites que nenhuma compulsão consegue eliminar. Quando essa exigência de perfeição começa a perder força, abre-se espaço para uma experiência mais livre da própria existência. A mente deixa de funcionar como uma prisão construída pela busca incessante de certezas impossíveis e recupera, lentamente, a capacidade de habitar um mundo onde a dúvida faz parte da condição humana, mas já não precisa comandar todos os passos da vida.

 

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